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É NOISE 1 – DAYDREAM NATION

(Antes de começar, temos uma surpresa pra vocês no fim do post)

É difícil de admitir, eu sei, mas nós somos limitados em muitas coisas. Seja em habilidades, características ou até conhecimentos. Na música isso é bem fácil de perceber. Não existe ninguém que conheça tudo, nem de longe. Quem nega é mentiroso. Pra não ser um desses mentirosos, vou admitir aqui, nessa coluna, uma das minhas maiores fraquezas no que tange música. Não conheço basicamente nada de noise rock. Tirando uma época longínqua dos meus 13 anos em que baixei uns 2 discos de noise pra pagar de culto, minha experiência no gênero é quase 0. Portanto, para tentar diminuir uma falta de conhecimento minha, resolvi inaugurar minha primeira secção no grande blog da Garagem Suburbana™.

A É NOISE vai ser minha tentativa de escrever minhas aventuras por esse mundo inexplorado da música barulhenta. Sei que talvez não interesse a muitos, mas imagino que outros tantos não têm paciência pra entrar de cabeça no gênero e essa talvez seja uma porta de entrada decente. Pra deixar a coisa mais “séria”, vou criar um pequeno conjunto de regras e uma base.

Começarei ouvindo os 15 discos mais bem cotados do gênero no Rate Your Music. Eu sei que o site tem várias posições duvidosas nas suas listas, mas é melhor do que nada. Para evitar a repetição de Sonic Youth – que domina a lista lá – vou me limitar a um disco por banda. Caso, após esses 15 discos, eu ache que valha a pena continuar com a coluna, eu sigo. Mas a princípio ela tem tempo de expiração. Até porque esse é um experimento e uma porta de entrada, não todo um estudo profundo.

Essas resenhas irão ser diferentes das outras que faço pra garagem. Vão ser mais primeiras impressões do que uma resenha crítica propriamente dita. Pra resumir: Elas talvez fiquem uma merda. Mas isso aí quem decide é o leitor. Apresento-vos (adoro falar bonito) a nova coluna É NOISE, começando com um disco que, por acaso – ou não- eu já escutei antes:

SONIC YOUTH

 DAYDREAM NATION

Nota do escritor: Os próximos dois parágrafos são feitos de memória de alguns anos atrás. É muito possível que o que eu me lembre do disco não tenha nada haver com ele de verdade. A memória é uma merda.

Como eu disse, na minha pré-adolescência eu queria pagar de alternativo. Não que eu ainda não queira, mas na época era pior. Não existe muita coisa mais lugar comum na música do que ouvir Sonic Youth pra passar uma impressão de profundidade. Não me levem a mau, eu adoro o trabalho dos caras. Realmente gosto do Goo e do Dirty, mais “simples” que o Daydream Nation. Desde aquela época acabei me estabelecendo com o trabalho mais rock do que noise deles. Ainda assim, lembro de ter dado uma chance ao Daydream Nation.

Foi uma experiência diferente. Não sabia exatamente se era bom ou ruim, se eu gostava ou não. Como era mais jovem, acabei desistindo de investigar mais o som deles. Ainda assim, tenho certeza que aquele foi um dos primeiros passos que me permitiu entender e gostar de música mais diferente. Injustiçado, nunca dei o devido valor a ele na minha formação cultural. Portanto, hoje é o dia de resolver e reparar meus erros.

Acabada a sessão de lembranças do passado não tão distante, vamos começar com a resenha. Estou ouvindo provavelmente o mesmo arquivo daquela época, o que no fundo não faz diferença. Espero que ele realmente seja mais experimental que os outros, porque se não vou ter dado um depoimento esquizofrênico. Simbora.

O disco começou bem rock, até. A Teen Age Riot – que eu lembro ser bem famosa – não tem quase nada de noise, eu acho. Tem um riff de guitarra interessante e a batera flui bem. Até agora, na terceira música, continua me lembrando bastante os outros discos. Talvez um pouco menos pesado que o Goo. Por outro lado sinto-o mais denso. Interessante.

Agora, no fim da quarta faixa já comecei a perceber um noise mais escancarado. Não que não tenha tido até agora, as distorções e os sons aleatórios estão ali, mas me parece mais uma escolha estética do que de experimentação, exatamente. Continuemos. Eric’s Trip! Agora sim, o noise tá aparecendo mais e está muito bom. As distorções estão absurdamente boas e os sons mais dissonantes estão se unindo bem! A faixa Hey Joni também está bem diferente.

Juntando o que parece ser noise, com um rock psicodélico, uma pitada de country e algumas outras coisas que não consigo identificar, ela fica ao mesmo tempo acessível e interessante.

O disco tá começando a dividir mais o barulho do resto. Não sei se é proposital, mas sinto que as músicas estão em parte rock – parte noise – parte rock – parte noise e por ai vai. Essa é a segunda vez que escuto uma trilogia de uma faixa só na música – a primeira foi com os Bitlos – e to curtindo muito de novo. O disco tá fechando da melhor maneira possível.

Fazia tempo que eu não ouvia esse discão e eu não podia ter recomeçado a jornada no noise de maneira melhor. O disco é principalmente de rock. Isso é inegável. Mas ainda assim consegue ter uma boa dose de experimentalismo, o suficiente pra atiçar e interessar quem não conhece nada do gênero a procurar mais.

Os músicos, como sempre, tocaram com inspiração e souberam administrar bem os dois lados da moeda com muito bom gosto. Não é de se espantar a reputação dos caras. Eles sabem o que fazem.

Foi uma ótima volta e espero que vocês tenham gostado da resenha. Essa foi um pouco diferente por ter sido feita conforme eu fui ouvindo e relembrando o disco. As próximas, eu juro, serão mais comuns. Acho que esse não vai ser o disco que introduzirá o noise pra muitos por essa coluna, porque acho que quase todos aqui já o ouviram. Mas ouçam de novo. Se não ouviram, façam esse favor a si mesmos, é um dos auges do rock no final dos 80 início dos 90.

E não é só porque é nova coluna que não tem link pro streaming! Fica o link pra nossa página no facebook e do nosso grupo! Não deixem de comentar. Uma última novidade pros fãs (?) da Garagem; uparei os discos dessa nova coluna. Aproveitem e peguem o Daydream Nation no Mega!

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We Were Promised Jetpacks – These Four Walls

EXPLICAÇÕES E DESCULPAS INICIAIS

Antes de tudo queria pedir desculpas por duas coisas: a falta de postagens (minhas pelo menos) e por não ter feito a mixtape do mês passado. Acabei não podendo postar por vários motivos, mas entre eles se destaca um principal: faculdade. Estou tendo provas que nem doido então tá difícil de conseguir arrumar tempo pra finalizar as postagens. Bom, porém nunca prometi que isso aqui seria um oceano imenso de postagens a cada cinco minutos, porque o Garagem é muito mais um hobby meu e dos outros do que um trabalho.

Agora sobre a mixtape, como não tivemos muitas postagens mês passado, eu vou fazer então uma mixtape no final de maio que vai englobar as publicações dos dois meses (abril e maio). Portanto aguardem o post. Nesse tempo todo que eu não postei eu estive elaborando uma review sobre uma banda que eu gosto muito mas não tive muito tempo para escrever, só consegui finalizar ela hoje mesmo.

Agora sem mais, vamos para a tão esperada (ou não) review de We Were Promised Jetpacks:

O QUE REALMENTE INTERESSA

1º final de semana do Coachella, o atual maior festival de música do mundo, que ocorre todo ano em Indio, California. Devido a minha agenda de atividades agitada no final de semana (só que ao contrário), passei assistindo os shows que foram transmitidos. Como de costume, quase todos os shows foram excelentes, porém entre eles se destacaram: Real Estate, Destroyer, Manchester Orchestra, SBTRKT, Explosions in the Sky, Bon Iver e finalmente: We Were Promised Jetpacks.

We Were Promised Jetpacks (WWPJ) é uma banda de Edinburgo, Escócia. Formada em 2003, o quarteto só atingiu um certo reconhecimento depois do lançamento do seu primeiro álbum de estúdio em 2009, These Four Walls. O estilo da banda pode ser colocado como um garage rock “melancólico”, uma sonoridade que tem acompanhado muitas bandas surgidas na cena alternativa da Escócia, entre essas bandas estão principalmente Frightened Rabbit, Twilight Sad e There Will be Fireworks. Os músicos dessas bandas inclusive fizeram algumas participações especiais tocando juntos e tudo mais, o que mostra bem as semelhanças entre elas.

Essa denominação “garage rock melancólico” não deixa transparecer muito bem como é a real sonoridade de WWPJ, por isso eu tento encontrar uma expressão que deixe transparecer bem a atmosfera da banda, porém não consigo achar nada que me agrade(Se algum leitor quiser comentar alguma expressão ou classificação que ache adequado, sugestões serão muitíssimo bem vindas).

Uma das características mais marcantes de We Were Promised Jetpacks são os vocais com esse sotaque extremamente forte, uma característica que infelizmente se repete muito nessas bandas escocesas, isso me leva a duas hipóteses: 1-Eles estão cantando naturalmente sem forçar 2-Eles estão forçando o sotaque para atrair o público de outros países que adora esse som “diferente”. Tudo me leva a crer que a segunda hipótese é a realidade, pois essa história de usar um sotaque nas músicas é uma coisa bem antiga e comum, podemos ver isso principalmente com essa explosão de bandas alternativas britânicas carregando fortemente o sotaque porque esse som é algo que vende (e muito bem por sinal) em terras além das ilhas bretãs.

As letras das músicas chegam a ser interessantes, porém a temática não altera muito durante o álbum, grande parte das músicas usam uma casa ou um ambiente domiciliar como espaço de ocorrência dos fatos, o que pode ser visto principalmente em “This is my House, This is my Home” onde repete-se a frase: “Somethings happened in the attic, There’s no way I am going up there” e também na música “Quiet Little Voices” onde se canta: “Quiet little voices creep inside my bedroom wall”. Isso tem grande relação com o nome do álbum “These Four Walls”, ou seja, “essas quatro paredes” fazendo alusão a uma casa ou um quarto.

As músicas tratam principalmente de alguém atormentado pela paixão, e por pensamentos que o deixam paranóico com tudo. São músicas que descrevem aqueles momentos onde estamos sozinhos em nosso quarto tentando não pensar em nada, porém a solidão só traz mais pensamentos que ocupam a cabeça e você começa a pensar em coisas e situações absurdas.

No que diz respeito a qualidade musical da banda, não é nada de grandiosíssima virtuosidade nos instrumentos, porém sabemos que não é a técnica que determina a qualidade de uma banda, vide Neil Young. Contudo, o esquema e as progressões não variam muito e até mesmo os vocais gritados que deixam WWPJ ser mais interessante acabam por se tornarem repetitivos demais.

GOLPE FINAL

We Were Promised Jetpacks não traz nenhuma inovação na sonoridade ou na temática, consegue muitas vezes ser uma banda um tanto cansativa de se ouvir devido ao seu som um tanto genérico quando comparado com as bandas atuais. Porém é importante notar que ela assim como Frightened Rabbit e Twilight Sad ajudaram a consolidar esse tipo de som que é hoje tão comum, pois eles vêm fazendo esse som faz um certo tempo já, ou seja, não entraram na hype, porém ajudaram a consolidá-la.

Ainda assim é uma boa banda para se ouvir, e incrível quando ao vivo (assistam o vídeo mais abaixo para conferirem). Um álbum um tanto genérico para os padrões atuais, porém na época que foi lançado era algo muito agradável aos ouvidos. Temos várias músicas boas no decorrer do disco como o incrível opener: “It’s Thunder and It’s Lightning”, seguido de “Ships With Holes Will Sink”, “Conductor” e “Quiet Little Voices”, ou seja, existe algo muito bom que vem de We Were Promised Jetpacks, porém não é suficiente para se destacar nos dias de hoje.

Quando forem ouvir, ouçam com ouvidos de 2009, e não com ouvidos de 2012 afinal hoje já estamos cansados dessa mesmice, precisamos de bandas que inovem e explorem a música. Ninguém mais aguenta essa marketização da música antes dita alternativa, pois quando a alternativa se torna a regra geral, ela perde seu caráter fundamental, a originalidade.

 

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The National – Alligator

Grandes bandas têm, na grande parte das vezes, uma estética própria. Essa estética, por sua vez, não precisa ser única, mas sim presente. Até porque, o maior sinal da grandeza de uma banda (e não necessariamente de qualidade) é a capacidade de influenciar toda a visão ou atitude de uma (ou mais) pessoa. E é por essa estética que a maior parte delas o consegue. The National é, sem dúvida, uma grande banda.  Logo, há de se imaginar que a banda possui uma estética forte e marcante. Só que o que acontece é justamente o contrário. Eles possuem sim uma estética, mas todo o charme de sua estética está justamente na sua falta de pretensão.

Veja a capa do Alligator. E do boxer. Ao que elas te remetem? A mim, ao menos, a um baile. Não um baile qualquer, mas o baile com que a maior parte das pessoas tenta esquecer (ao menos na impressão que os estado-unidenses nos passam), o baile de formatura. E The National é justamente isso, uma banda feita para sua formatura e o que se segue dali. É claro que não estou dizendo que todas as pessoas tentam esquecer seu baile, algumas delas o estimam muitíssimo. Mas, para grande parte do público alvo do gênero (que os próprios integrantes da banda também são), a formatura tem sim motivos para ser esquecida. Quer seja por um amor perdido

“Whatever you do
Listen, you better wait for me
No, I wouldn’t go out alone” 

ou por um amor que nem sequer tenha sido achado.

E não só a noite do baile lhes é traumática e sim todo o ideal que ele representa. O colegial frustado, os sonhos que em face da maturidade recém adquirida, já não mais parecem tão possíveis  ou até mesmo por conta da aceitação. Diria inclusive, à pesar do que já havia dito, que TODO aluno do colegial sai machucado. Se ele se enquadra, sacrifica coisas que lhe eram importantes e muitas vezes mal sabe se portar.

“You turn me good and god-fearing
Well, tell me what am I supposed to do with that
I’m missing something “

Se não se enquadra, sente-se sozinho nos seus ideais. O que já havia sido perseguido não mais lhe sacia. Por que lhe saciariam, aliás, se mal o conseguiram fazer ser aceito? Do que adiantam, ora bolas, se não para sustentar sua auto estima?

“Take all your reasons and take them away
To the middle of nowhere, and on your way home
Throw from your window your record collection
They all run together and never make sense
But that’s how we like it, and that’s all we want
 Something to cry for, and something to hunt”

E mesmo o que, a princípio, era bem aceito por quem era, amado pela sua natureza e não por máscaras ou reflexões distorcidas de sua razão, não pode escapar dos traumas do colegiando. Mesmo aquele que era um símbolo do sucesso, ainda que em escala estudantil, ao passar da sua vida suburbana e das asas da sua alma mater, ver-se-à  em fronte da realidade de todos. Não somente mais das mesmas pessoas que o faziam desde que se dera por gente. Agora, seus colegas, seus iguais, não são mais seus admiradores e sim seus depreciadores.

“I wish that I believed in fate
I wish I didn’t sleep so late
 I used to be carried in the arms of cheerleaders”

No fim das contas, o apelo do National está aí. Com seu som contido, propositalmente meticuloso e sucinto, remetendo aquela fatídica noite, ponto culminante de toda sua angustia juvenil. Um som longe da visceralidade mas ainda assim cru, cru não por jovem mas sim por estar despido de suas convenções, sendo o que lhe convém ser e não o que querem que o seja. Por sinal, também é bem longe da juventude o ponto em que a voz barítona de Matt está. É uma voz cansada, torneada por suas experiências, ainda assim incapaz de cicatrizar aquelas feridas; fruto maldito de uma experiência frustrada e inapagável que foi sua escola.

Justamente o National tenta ser esquecido. Não por fugir ao sucesso, mas para tentar ser o exato oposto do que lhe assola, da memória que permeia toda sua frustração, toda sua sensação de fracasso. E ainda assim falha. Mas é nessa falha, nessa incapacidade quase que incidental e poética que reside toda a força do som do National. Na sua condição de derrotado, ainda que consciente. Afinal, eles também sabem que nada é completamente esquecível.

E eles sabem que enquanto estão tentando sarar essas feridas os outros simplesmente não os vão esperar. Eles sabem que, inevitavelmente essas feridas vão continuar abertas e que as próximas fases das nossas vidas não vão ser gentis ou sequer compreensivas com essa ferida tão profunda e latejante. No fim das contas, eles mesmo já às sustêm.

“The English are waiting
And I don’t know what to do
In my best clothes

I’m the new blue blood, I’m the great white hope
I’m the new blue blood”

E é assim, por meio da música, que dois pares de irmãos se juntaram para enfrentar uma mesma ferida. Uma ferida comum não só a eles mas sim a todas as pessoas.

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