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Soft Machine – Fourth (1971)

Por que não o Third, e sim o Fourth? Por que explicar isso logo de começo? O porque do Fourth: simplesmente por ser o meu favorito e também o disco de mudanças no Soft Machine. E deixar isso claro, logo de início, por quê? Devido à resenha anterior, quis experimentar; passar pro início o que havia deixado pro final. Tendo me debruçado sobre quase todos os ‘porques’ da língua portuguesa, atenho-me agora ao disco, esclarescendo um pouco a atmosfera do quarto disco da banda.

“Third” (1970) é o mais famoso disco do Soft Machine, turning point, um grande mergulho no Jazz.“Fourth” não é diferente. É mais jazz, melhor produzido; atilado.

Último disco a ter Robert Wyatt na bateria, e o primeiro sem seus vocais. Primeiro disco inteiramente instrumental. Passo ainda maior no mundo do Jazz, fixando de vez o Cantenburry sound no prog-jazz (ao lado do Caravan, Soft é o maior expoente desse cena), porém fugindo um pouco pelo elevado tom jazzístico.

Falando propriamente do “Fourth”, é até difícil encontrar palavras que encaixem numa abertura como a desse disco. “Teeth” é o nome do primeiro petardo. Introdução no baixo, riff espetacular…. Tantos timbres, sensações, acontecem logo de início. Vamos de jazz-rock aos instrumentos de sopros que lembram Charles Mingus, passando pelo progressivo e sintetizadores “grunhindo”.

Não posso deixar de destacar o excelente trabalho dos sopros, utilizados muitas vezes com uma roupagem diferente da usada convencionalmente do Jazz de então (mais próxima do Fusion). Sem nunca esquecer da, não menos excelente, linha de baixo de Hugh Hopper; marcando, conduzindo, indo do Jazz ao Rock.

A segunda faixa, “Kings And Queens” é tão espetaculosa quanto a primeira. Sem palavras. O auge do free-jazz chega em Fletcher`s Blemish. Sopros urrando, zumbindo um com outro. Mike Ratledge, e seu piano, fazendo uma base excelente.

As últimas 4 faixas, na verdade são uma só: Virtually. Novamente ficamos de ouvidos colados, seguindo os dedos de Hugh Hopper correndo o Baixo; solo incrível. A utilização de efeitos nos sopros, no órgão, e distorção no baixo, dão um ar diferenciado, tornando complicada a rotulação da banda.

“Fourth”, sem dúvida, marcou a banda. Enterrou de vez o passado beatnik (percebido pelo próprio nome da banda). Significou um passo a frente do Cantenburry sound, criando uma identidade própria no meio do Progressivo, Jazz Fusion, Jazz-rock, Jazz-prog, e outras infinidades de rótulos que pouco servem de parâmetro. Após esse disco, Robert Wyatt saiu da banda, seguiu carreira solo e formou o Matching Mole. O Soft perdeu um exímio baterista, mas como podemos ouvir nos discos seguinte, “Fifth” e “Six”, a banda continua coesa e criativa. Contudo, está em Fourth o ápice da banda.

Depois deles surgiram inúmeras bandas que hoje são chamadas de future-jazz, nu-jazz, entre outros rótulos infindáveis. Ouvindo algumas delas com calma, torna-se evidente a influência dessa máquina louca e incadescente.

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Serge Gainsbourg – Histoire de Melody Nelson

– “Tu t’appelles comment?”
– “Melody”
– “Melody comment?”
– “Melody Nelson.”

Esse é o primeiro diálogo entre a jovem ninfeta e seu amante que passa dos quarenta anos. É disso que “L’histoire de Melody Nelson” trata. Fala sobre como um homem experiente perde o controle e a razão por uma jovem adolescente. Disco clássico e importantíssimo não somente na carreira de Serge Gainsbourg, mas para a música de forma geral. Gainsbourg ficou conhecido mundialmente pelo famoso sucesso “Je T’aime… Moi Non Plus”, lançado três ano antes, em 1968. A partir desse estrondoso sucesso, começa o novo projeto de “Monsieur” Gainsbourg: um álbum conceitual, experimental, inspirado pelo livro “Lolita”, de Nabokov. O livro foi tão influente no projeto, que a ideia original era musicá-lo. Contudo, Hollywood chegou antes, com o filme “Lolita”, de 1962, dirigido por Stanley Kubrick.

Já pela capa podemos observar a candura e sensualidade de Melody Nelson (“interpretada” por Jane Birkin, então esposa de Gainsbourg); em fundo azul-calcinha, Jane Birkin salta aos nossos olhos encobrindo os seios juvenis somente com uma pelúcia. Sabemos, entretanto, que não se pode julgar um livro (e/ ou disco) pela capa, mas esta nos chama, provoca. E sua audição não deixa por menos.

A história começa com uma frase de baixo, que a cada compasso corrido, se aproxima aos ouvidos atentos e ansiosos do amante da música. Volume aumenta; bateria entra; guitarra dá sua essência distorcida e improvisada. Som cru, arrastado. Entra a narração de Serge. Deste modo inicia,com a faixa “Melody”, que se aproxima do fim com o diálogo com o qual abri essa resenha; Jane Birkin introduz sua personagem. Sem nos deixar respirar, já que não há intervalos entre as faixas (como grande parte dos discos conceituais),  o disco continua com “Ballade de Melody Nelson”.Volta o baixo acompanhado do violão. Uma valsa nos acalanta em seguida, “Valse de Melody”, música utilizada anteriormente em comerciais. Outra grande faixa nos chama atenção, quase uma ode à personagem. Nessa curta viagem (de apenas 28 minutos de duração) permeada por elementos inovadores, como os maravilhosos arranjos de Jean-Claude Vannier, somos levados a essa mistura de rock, música francesa e funk, criando um ambiente único e simples. E somos, novamente, levados à frase arrepiante de baixo que abre o disco, e também abre a faixa que encerra a história. “Cargo Culte”, faixa que recebe os moldes da primeira. Encerra o disco de forma magnífica, com o coral crescente, dando um tom de apreensão e angústia, assim como é o fim desse homem experiente, interpretado por Serge Gainsbourg.

Dessa forma pungente, com coral e orquestra, termina a viagem da ternura, inocência e paixão. Esse foi “Histoire de Melody Nelson”, álbum até hoje muito influente. Bandas como Portishead e Placebo souberam disso, e tem versões próprias da música “Ballade de Melody Nelson”. Além de contar com a participação de Jean-Luc Ponty, nos violinos da faixa “En Melody”, onde se ouve risadas histéricas, quase orgasmáticas, o disco conta com o guitarrista britânico de estúdio Alan Parker, e o já citado, arranjador e autor de trilha sonora, Jean-Claude Vannier.

Retire meia hora de sua noite, aprecie uma bebida e deleite-se com essa pérola da música.

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