Defiance, Ohio – Share What Ya Got

Uma das piores sensações, como fã de música, é saber que uma de suas bandas favoritas nunca vai tocar no seu país. Não falo de bandas defuntas ou daqueles clássico “banda X muito famosa nunca mais volta”. Essas no fundo, ou são justificáveis ou só um pessimismo exacerbado. Agora, saber que as chances daquela banda que você adora vir para sua cidade ou mesmo país são minúsculas é realmente ruim. Defiance, Ohio infelizmente vive me proporcionando essa sensação.

Formada em 2002 na cidade de Bloomingtoon, Indiana – desculpe, mas não, ela não é de Ohio – a banda é parte do selo Plan-It-X, uma gravadora com uma forte mentalidade de DIY (do it yourself, para os que não conhecem a abreviação) e de anti-capitalismo. Ainda que no fundo a gravadora não importe tanto, esses ideais estão bem claros em todo o trabalho do Defiance, Ohio. Todas as letras compostas pelo grupo, acompanhadas de maneira bem crua por violinos, baixo, bateria, guitarra, violoncelo e banjo, tendem a recorrer a essas ideias de  anti establishment.

Portanto, não é de se impressionar que o disco Share What Ya’Got não fuja do padrão. A questão é que ele não precisa. As letras desiludidas que falam de não poder mais sonhar, de esquecer o erro que é a vida moderna e de perder a paixão por trás de um mundo de concreto -todas palavras deles- encaixam perfeitamente com a atmosfera amadora – só nas aparências – de punk country auxiliado de violino.

A produção, por mais amadora que pareça – novamente, não é – encaixa perfeitamente essas contradições aparentes. Se, naturalmente, a mistura de punk, o gênero anti tradição, com violoncelos, instrumento associado a música erudita ou tradicional, parece estranha, em SWYG ela é completamente natural. Não só pela produção, mas também, como já havia dito, pela crueza da banda.  As letras, disparadas as partes mais agressivas do som deles, permitem que todo o disco tenha uma aura de verdade. Não absoluta, mas verdade idealizada, honesta.

Contudo, esse assunto limitado incomoda um pouco. Não pelo extremismo, que é direito de qualquer um, mas pela repetição exaustiva. Nada que faça detrimento do disco, mas chega sim a incomodar um pouco.

Reforçando a questão da instrumentação, posso destacar duas coisas: Como, apesar da atmosfera, os instrumentistas não são nem um pouquinho amadores e de como a banda consegue transitar tranquilamente de melodias alegres, suaves até outras bem mais agressivas e tensas em poucos segundos sem perder a compostura. Talvez, diria eu, seja por conta do violino e do violoncelo que sempre se mantém no mesmo timbre mais rápido, alegre que estabelece uma base a variação sonora dos outros instrumentos.

Ainda assim, se comparada a essas novas bandas de folk-punk que encheram a internet na última década – Andrew Jackson Jihad, This Bike Is A Pipe Bomb, O Pioneers!, Ghost Mice e outros – Defiance, Ohio continua sendo a minha favorita. Isso vinde um fã do gênero. Talvez seja pela variedade maior dos instrumentos, talvez seja pelo vocal que me agrada ou talvez seja pela culpa de não ser tão engajado quanto os membros da banda. Certeza só tenho de que Share What Ya Got é um dos meus discos favoritos.

PS: O baterista da banda é o vocalista do Nana Grizol, outra das minhas bandas favoritas.
PS2: O vinil vem com um encarte que parece uma fanzine, bem na pegada da banda.
PS3: é melhor que o Xbox360, haters.

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Griffin House – Flying Upside Down

A mágica linha que define os gêneros ou estilos musicais nem sempre é clara. De vez em quando ela pode parecer muito sintética. Outras, orgânica demais. Isso é normal, afinal ainda não a descobrimos, só damos a nossa interpretação de como ela seria. Aliás, nunca descobriremos nada nesse nível, pois sabemos que perfeição não é com o homem.

Ainda assim, alguns discos parecem esquecer essa história de divisão perfeita e misturam doses iguais e heterogêneas de dois gêneros. Griffin House faz mais e junta não só o country e o rock, mas também o pop.

Claro, o resultado – como já era de se esperar – não é exatamente um álbum experimental digno de ser o Trout Mask Replica do século XXI. Mas é um disco aconchegante e alegre, pessoal e tocante. O que uma experiência dessas deveria resultar, afinal de contas.

O disco “Flying Upside Down”, lançado em 2007, não é nem de longe o primeiro da carreira de Griffin. Contudo, foi minha primeira oportunidade de conhecer-lo. Entre um violão claramente country, solos de guitarra e uma banda inteira e, pra finalizar, refrãos pegajosos, FUD é claramente misturado. Mas é de uma mistura que, a principio, reflete os gostos e inspirações de Griffin, ou seja, não parecem experimentações forçadas apenas para adicionar um pretenso “tempero” ao som.

Sem muita enrolação, Griffin já começa a demonstrar seu lado mais emotivo no álbum. A maior parte das músicas é romântica ou num ponto de vista apaixonado ou de coração apertado. Contudo, nem todas as músicas seguem assim. A destaque do álbum, Its Happening Again, fala sobre como os Estados Unidos repete o erro de mandar constantemente seus filhos à guerras – muitas das quais nem lhe tocavam – pelo ponto de vista de um filho e neto de soldados.

As outras músicas, ainda que normalmente boas, acabam não se destacando. Nenhuma delas “gruda” em sua cabeça ou você se pegará cantando por ai, mas sempre as terá em memória quando as ouvir de novo. Não que isso seja ruim, mas é uma característica importante dos discos pop, o que esse é em muitos momentos.

Apesar do tom das letras ser sóbrio o do álbum como um todo não é. Com clara influência da música pop, a maior parte das canções é composta de melodias crescentemente alegres e refrão semi pegajoso. Porém, é justamente essa mistura que permite o álbum escapar de uma cara padronizada. Ao aliar os esteriótipos do pop alegre, das baladas românticas e tudo que existe no meio, o disco se permite ser ligeiramente diferente. O que, sejamos sinceros, é muito nos dias de hoje.

Por isso, não hesitaria em recomendar Griffin House para ninguém que goste de pop ou simplesmente esteja procurando um artista novo. Contudo, qualquer um que esteja procurando algo mais profundo ou diferente, continue na busca. Esse é mais um álbum que provavelmente você vai gostar e só. Sem muito demais ou de menos. Mas para aqueles que estão precisando de uma música de semi-fossa, fica mais interessante que Ne-yo.

Como sempre, gostaria de lembrar a todos de curtir nossa página e grupo no facebook! Lá postamos coisas novas – vídeos e fotos em sua maioria – todos os dias. Além disso, segue o streaming no grooveshark.

Black Moth Super Rainbow (e um pequeno informe)

Antes de qualquer coisa, gostaria de colocar no papel (ou na tela) algumas coisas: sinto muito que a Garagem tenha perdido a sua certa frequência de posts, parte da culpa disso é minha, pois mesmo nas horas que eu podia escrever eu preferi fazer outras coisas. Queria agradecer a todos os nossos novos “curtidores” da Garagem no Facebook, conseguimos com algumas “estratégias de marketing” dobrar o nosso número anterior, espero que todos vocês continuem presentes no Facebook e agora que eu planejo essa “retomada” da Garagem fiquem presentes acompanhando o blog também.

O tempo passou e a Garagem tá quase fazendo um ano, agora em fevereiro a Garagem (apelidada de LA GARAJE) completa seu primeiro ano de vida. Mas esse melodrama todo de aniversário a gente deixa para outro momento. Para agora,

Show do BMSR

Show do BMSR

vamos ficar com uma tentativa nova de postagem (que já foi feita pelo Gabriel), vou falar não de um disco em especial mas sim de uma banda: Black Moth Super Rainbow.

Esse nome totalmente bizarro já dá uma base para entender a loucura que é o som deles. Diretamente de Pittsburgh, Black Moth Super Rainbow (BMSR) é um projeto experimental de música pop e psicodélica. Desde a sua formação em 2003, todos os seus discos foram lançados de forma independente. Agora em 2012, eles lançaram um disco com ajuda de crowd funding pelo Kickstarter.

Ainda que reconhecida na cena psicodélica/experimental, BMSR nunca foi uma banda que “estourou”, ainda mais que os membros preferem se manter distanciados da mídia. Eles então acabaram criando uma aura, por assim dizer, de mistério em torno de suas identidades e de seus projetos.

Essa imagem orquestrada por eles serve para complementar o seu som, que é basicamente o abuso de equipamentos eletrônicos analógicos (o vocoder e o mellotron sendo os mais presentes), distorções, reverb, vozes agudas até o talo e graves impactantes, criando assim uma trilha sonora perfeitamente psicodélica que te joga dentro de uma viagem de cogumelos e DMT.

BMSR tem uma história muito prolífica de lançamentos, começando com o disco Falling Through a Field, Black Moth Super Rainbow (antes conhecida por Satanstompincaterpillars) começou uma viagem que se mantém até hoje. Meus destaques para esse disco são as faixas I think its beautiful that you are 256 colors too e Dandelion Graves. Em 2004, eles já lançam o disco Start a People que contém duas faixas do primeiro disco.

Versão de pelúcia do disco Eating Us

Versão de pelúcia do disco Eating Us

Em 2007 porém, eles lançam o seu álbum mais importante e de maior reconhecimento, Dandelion Gum. As primeiras edições em vinil até vinham com uma capa que tinha cheiro de chiclete! Nesse disco as faixas que eu acredito que mereçam mais destaque são: Fore

ver Heavy, uma faixa de abertura extremamente ácida que já provoca os ouvidos de quem está escutando. Outras duas faixas seriam Lollipopsichord e Sun Lips que foi a primeira música do BMSR que virou clipe (assista ao clipe logo mais abaixo).

E agora chegamos na história mais recente de Black Moth Super Rainbow, com o lançamento de seus últimos dois discos, Eating Us e Cobra Juicy de 2009 e 2012 respectivamente. O álbum de 2009 novamente reflete a excentricidade da banda, pois as primeiras edições vinham embaladas em um pacote de pelúcia. Cobra Juicy, o álbum mais recente, também teve sua excentricidade: ele vinha acompanhado de uma máscara de laranja. Nesse último disco nota-se uma prevalência do pop em detrimento do psicodélico, em faixas como Windshield Smasher, Hairspray Heart e Gangs in the Garden essa transição fica bem evidente.

Então aí está, Black Moth Super Rainbow. Ainda que tenha se tornado mais pop, as influências psicodélicas e as letras que tratam de um “descolamento” do mundo continuam presentes no som deles. Não posso esquecer também de comentar dos  projetos solo dos membros (que não são raros), sendo um bom exemplo o líder da banda, Tobacco, que já lançou uma série de discos, singles e remixagens.

Colecionável do disco Cobra Juicy

Colecionável do disco Cobra Juicy

Esse formato de texto é relativamente novo para mim então gostaria de receber um feedback de vocês leitores. A participação de vocês é muito importante para que nós possamos saber o que fazer e o que não fazer.

Como de praxe segue o link da nossa página no Facebook: http://www.facebook.com/garagemsuburbana

E também o soundcloud da banda, onde você pode ouvir um monte de faixas do BMSR e do Tobacco: https://soundcloud.com/black-moth-super-rainbow

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Sufjan Stevens – Illinois ou Come On Feel the Illinoise

Serei sincero: sou bem atrasado, em especial se tratando de música. As vezes por desleixo, mas na maioria das vezes por achar que se trata de hype, deixo de ouvir muitos álbuns que “todo mundo” já ouviu. Só nesse ano já foram alguns; Tame Impala, Kendrick Lamar e Godspeed you! lançaram novos álbuns os quais eu nem ouvi uma faixa sequer. Esses, porém, são artistas que eu conheço e que, bem ou mal, já sei o que esperar. O problema maior é deixar passar um álbum de algum artista que eu não conheça. Pois, vejam assim, por não conhecer-lo fica muito difícil lembrar de um dia voltar a ele. Infelizmente, isso aconteceu entre mim e o magistral Sufjan Stevens.

Antes de começarem a achar que não tenho a mínima noção de música recente, já digo que sim, eu conhecia Sufjan Stevens. Afinal, os seus álbuns são favoritos de boa parte da comunidade hype do nosso mundinho. Justamente por ter esse conceito em minha mente, de que se tratava de mais um artista indie sem sal, deixei os seus discos de lado. Hoje, alguns anos depois, tenho que dizer que queimei minha língua. Sufjan Stevens é, sem dúvida, um grande artista e Come on feel the Illionoise! é um épico musical.

Composto de  22 faixas, o disco se assemelha a uma colagem de estilos. A sobreposição calculada de folk, pop, country e rock demonstram o domínio que Sufjan possuí sobre sua construção musical. Isso não é de se espantar, levando em conta a versatilidade de Sufjan como músico, tendo domínio de instrumentos do tradicional violão, ao piano e o xilofone. Além de grande músico, também é um talentoso lirista.

Ao abordar temas envolvendo o conceito do estado de Illinois e outros que tratam de introspecções próprias, ele consegue desenvolver bem sua imagética musical. Variando de canções mais animadas – Come on! Feel the Illinoise! – até baladas tristonhas – John Wayne Gayce Jr – todas as músicas parecem assombradas pelos fantasmas do próprio Sufjan. Em “Chicago”, não há como não perceber a própria incerteza do artista no momento em que diz “I’ve made a lot of mistakes, in my mind”.

Esse misto de autobiografia com álbum conceitual traz uma aura especial ao disco. Ao mesclar os temas, trazendo sempre uma grande parte de si, mesmo em um disco sobre um estado que lhe é “estranho”, temos um trabalho que é geral e ainda assim personalizado.

Outro detalhe importante da caracterização musical do disco é a progressão. Durante várias das músicas do álbum, é fácil perceber o crescer ou diminuir do ritmo, a entrada do clímax – muitas vezes acompanhado do surgir de novos instrumentos – ou uma passada para repetição instrumental. Com essa marcação bem clara, o álbum começa a tomar uma forma épica, maior do que individualmente cada músico ali parece realizar.

No fim das contas, “Come on” é um disco grandioso musicalmente e intimista liricamente. Com uma semi orquestra o acompanhando, com melodias intrincadas e seguimentos épicos, Sufjan quebra expectativas e trabalha com letras introspectivas, talvez até tímidas; passando pela história de um serial killer que sofreu abusos indo até por questões de sua própria religiosidade. É um álbum ambicioso feito em uma época de certa falta de escopo, de busca da grandeza. Um clássico numa era de bandas indies xerocadas.

Para não perder o hábito, ai segue o link de stream no grooveshark! Também segue a nossa página do Facebook, onde nós trazemos notícias e músicas quase diariamente!

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Flores de Bach – Cosmogonía de los Valles

Nós, da Garagem, estamos muito felizes de poder publicar a primeira resenha de um de nossos leitores, o Vitor Hugo Toffoli. Se você gosta de escrever resenhas e não tem onde publicá-las ou então quer aparecer no blog, é só nos enviá-la pela nossa página do Facebook. Então, segue agora a resenha do disco Cosmogonía de los Valles, da banda Flores de Bach, pelo Vitor Hugo Toffoli.

“Os Florais de Bach têm sido usados nos últimos 80 anos mundialmente como terapia complementar. Com as 38 essências, você poderá harmonizar suas emoções, trabalhando sutilmente para restaurar o equiíbrio emocional do seu ser”.  Essa afirmação soaria como uma baita  mentira, mas depois de ouvir “Cosmogonía de los Valles”, EP lançado pelos chilenos do Flores de Bach essse ano, confesso que estou muito inclinado a acreditar nessa premissa.

Formado em 2008, na cidade de Valparaíso, no Chile, a banda vem  acompanhando a cena de bandas indie da região, como Lluvia Morada, Niña Ciboulette, entre outras. O trio, composto por  Felipe Ugalde (voz, guitarra), Felipe Valdivieso (voz, baixo), Franco Milesi (bateria, percussão), faz um shoegaze que, nesse EP, assume diversas facetas quando unido ao folk rock e distorções que ecoam o sentimento envolvente e mutante da obra.

Folcados em seus pés, como todo o bom shoegazer, a banda entrega um EP com quatro faixas que desenvolvem o estilo permeado de passagens acústicas capazes de expandir-se em conjunto com os vocais (sublimes) na atmosfera infinita criada pelo som das guitarras, com um baixo presente de dar orgulho a Graham Bailey (The Sound). O ouvinte pego nessa atmosfera é transportado para um ambiente de dispersão contemplativa que aos poucos assume um carater místico, sendo que aqui desfrutamos do misticismo urbano de Valparaíso. Em cada verso cantado, é possível sentir  a nostalgia (“arriba en el cerro, los pajaritos brillan y cuando llega el viento, me escondo en la baía”), o presente sem fim na vida urbana e a felicidade que se perpetua em um meio tão volátil, a qual adquirimos a cada ano em que vivemos em nossos mundos pequenos de grandes significados (hoy iremos a andar allá en el mar /a ver el atardecer /es un carnaval).

A sonoridade produzida em conjunto com as letras permitem que a experiência se mantenha ao longo de quatro faixas com menos de  quatro minutos ( Ainda não consigo acreditar na duração dessas músicas. Para os físicos de plantão, esse ep pode ser usado para experimentar a teoria da relatividade), tornando a experiência mais marcante ainda. Pois afinal, estou aqui lhes falando de 4 músicas com média de 3 minutos, os quais são extendidos em um universo de contemplação permeado de coros, ecos de guitarra, e pela mais pura felicidade.  Os mesmos três minutos que podem fazer o nosso dia valer a pena no mar de incertezas que o cotidiano ironicamente nos coloca à deriva.

Esse EP vem como uma das melhores surpresas do ano. A sonoridade criada pelo Flores de Bach deu a essas quatro canções pequenas a possibilidade de marcar várias vidas, crescendo constantemente até adquirirem todos os contornos do que chamamos instintivamente de clássico. Mesmo que o mundo talvez nunca venha a saber disso.

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