Arquivo da categoria: Pop

Dennis Wilson – Pacific Ocean Blue

Volta e meia nos deparamos com certas histórias de injustiças no mundo da música. Algumas envolvendo direitos autorias, outras brigas injustas. As mais interessantes, porém, são as que envolvem a apatia do tempo com relação a certos álbuns que merecem muito mais reconhecimento do que tem. Dennis Wilson, baterista dos Beach Boys até sua morte, gravou no ano de 1977 seu primeiro disco solo: Pacific Ocean Blue

Dotado de uma voz rasgada, Wilson é a estrela indiscutível do álbum; produz, canta e toca diversos instrumentos. De todos esses papéis, o que mais me surpreende é o da produção. Apesar de já saber pela própria discografia dos Beach Boys da qualidade como músico de Dennis, o talento para o arranjo e a produção de um disco me eram desconhecidos. Com um ambiente sonoro diversificado, abrangendo os mais diversos períodos da música a época – algumas canções passam de baladas para outras num ambiente de bayou como nos discos de Dr John para temas saidos direto dos anos 50 – a delicadeza e sutiliza do trabalho de estúdio.

Em uma música como Time, por exemplo, passamos de um começo mais contido para um final claramente pautado em um pop rock mais pesado, ambas as partes carregadas pelo piano. O disco em si é carregado por alguns instrumentos base: O piano, o baixo e os metais. Ainda que vários outros tenham seu protagonismo em certas músicas, tenho por mim que essa trinca é a alma da produção.

Ressaltada a importância suma de Wilson para o disco, não poderia deixar de falar da banda de apoio. Composta por vários membros, ela é a cerne de sustentação do álbum. Se Wilson destaca com sua voz marcante e levada sombria, os outros instrumentistas carregam atmosfera!

Puxando pra um pop mais contido, levado para o rock and roll e o funk, Pacific Ocean Blues é ao mesmo tempo similar e distinto dos trabalhos clássicos dos Beach Boys, como Pet Sounds. As harmonias vocais, os crescendos constantes nas músicas e a levada alegre coabitam com uma certa ambientação mais etérea, com instrumentos mais pesados e leves distorções. Um avanço que não abriu mão completamente da sonoridade antiga do artista.

Dennis Wilson acaba soando como uma resposta do pop a Tom Waits. Não do pop mais midiático, mas do pop espontâneo, leve mas não defasado. Se Waits leva um lado sombrio, desgastado, Wilson não abandona sua estirpe californiana e faz o disco soar como algo saído de um por do sol numa praia qualquer do pacífico.

Os anos 70 também aparecem bem idiossincráticos aqui, com vários arranjos e progressões tiradas do livro base do pop setentista, o que não é necessariamente ruim. Nada é feito fora de contexto. O que mais incomoda, porém, são alguns momentos em que uma experimentação mais interessante parece ter sido descartada em prol dessa ambientação de época.

Uma gema, não das maiores nem das mais brilhantes, mas ainda assim preciosa do pop. Infelizmente recebe muito menos atenção do que deveria, tendo em vista ser digna do legado dos Beach boys. Recomendo-a para os que gostam de um disco leve mas não fácil. Vale a pena ouvir repetidas vezes, seja pela qualidade de Wilson ou de seus acompanhantes.

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Sufjan Stevens – Illinois ou Come On Feel the Illinoise

Serei sincero: sou bem atrasado, em especial se tratando de música. As vezes por desleixo, mas na maioria das vezes por achar que se trata de hype, deixo de ouvir muitos álbuns que “todo mundo” já ouviu. Só nesse ano já foram alguns; Tame Impala, Kendrick Lamar e Godspeed you! lançaram novos álbuns os quais eu nem ouvi uma faixa sequer. Esses, porém, são artistas que eu conheço e que, bem ou mal, já sei o que esperar. O problema maior é deixar passar um álbum de algum artista que eu não conheça. Pois, vejam assim, por não conhecer-lo fica muito difícil lembrar de um dia voltar a ele. Infelizmente, isso aconteceu entre mim e o magistral Sufjan Stevens.

Antes de começarem a achar que não tenho a mínima noção de música recente, já digo que sim, eu conhecia Sufjan Stevens. Afinal, os seus álbuns são favoritos de boa parte da comunidade hype do nosso mundinho. Justamente por ter esse conceito em minha mente, de que se tratava de mais um artista indie sem sal, deixei os seus discos de lado. Hoje, alguns anos depois, tenho que dizer que queimei minha língua. Sufjan Stevens é, sem dúvida, um grande artista e Come on feel the Illionoise! é um épico musical.

Composto de  22 faixas, o disco se assemelha a uma colagem de estilos. A sobreposição calculada de folk, pop, country e rock demonstram o domínio que Sufjan possuí sobre sua construção musical. Isso não é de se espantar, levando em conta a versatilidade de Sufjan como músico, tendo domínio de instrumentos do tradicional violão, ao piano e o xilofone. Além de grande músico, também é um talentoso lirista.

Ao abordar temas envolvendo o conceito do estado de Illinois e outros que tratam de introspecções próprias, ele consegue desenvolver bem sua imagética musical. Variando de canções mais animadas – Come on! Feel the Illinoise! – até baladas tristonhas – John Wayne Gayce Jr – todas as músicas parecem assombradas pelos fantasmas do próprio Sufjan. Em “Chicago”, não há como não perceber a própria incerteza do artista no momento em que diz “I’ve made a lot of mistakes, in my mind”.

Esse misto de autobiografia com álbum conceitual traz uma aura especial ao disco. Ao mesclar os temas, trazendo sempre uma grande parte de si, mesmo em um disco sobre um estado que lhe é “estranho”, temos um trabalho que é geral e ainda assim personalizado.

Outro detalhe importante da caracterização musical do disco é a progressão. Durante várias das músicas do álbum, é fácil perceber o crescer ou diminuir do ritmo, a entrada do clímax – muitas vezes acompanhado do surgir de novos instrumentos – ou uma passada para repetição instrumental. Com essa marcação bem clara, o álbum começa a tomar uma forma épica, maior do que individualmente cada músico ali parece realizar.

No fim das contas, “Come on” é um disco grandioso musicalmente e intimista liricamente. Com uma semi orquestra o acompanhando, com melodias intrincadas e seguimentos épicos, Sufjan quebra expectativas e trabalha com letras introspectivas, talvez até tímidas; passando pela história de um serial killer que sofreu abusos indo até por questões de sua própria religiosidade. É um álbum ambicioso feito em uma época de certa falta de escopo, de busca da grandeza. Um clássico numa era de bandas indies xerocadas.

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