Arquivo da categoria: experimental

É NOISE! 2

Velvet Underground
White Light/White Heat

Serei direto; não sou lá muito fã de Velvet Underground. Já adianto também que já tinha escutado esse disco há muitos anos. Mais até do que o Daydream Nation. Então, diferentemente do primeiro É noise! nesse caso não me lembro muito bem mesmo do disco. É basicamente ouvir do zero novamente. A única memória que tenho dele é de ser, disparado, o disco que mais gostei do VU. Porque eu demorei tantos anos pra ouvi-lo de novo, não sei.

Talvez mais até do que o Sonic Youth, o Velvet Underground basicamente dispensa apresentações. Não é, apesar do nome, lá muito alternativa nos dias de hoje. Um dos maiores atos do rock nos anos 60 e também um dos mais experimentais – junto de outros gigantes como Zappa e Beefheart, por exemplo – o conjunto Nova Iorquino era a representação musical do movimento artístico de contra cultura que se consolidava na metrópole norte americana.

Apadrinhados pelo artista Andy Warhol, o som deles influenciou muito o desenvolvimento do rock no final dos 60. Eles quebravam, conscientemente, diversas convenções e paradigmas ainda tentando manter um som relativamente acessível. Não era uma experimentação total como em Trout Mask Replica ou no Free Jazz. Era um produto pop, antes de tudo, desconstruído.

Em White Light/White Heat, a banda já não segue necessariamente a “agenda” pop art. Lou Reed e companhia já fazem um som completamente próprio. São as suas necessidades que entram em jogo. Daí surge talvez à base mais importante pra todo o movimento noise rock e até mesmo do punk. Uma triste nota: Após esse disco, John Cale  – o meu membro favorito da banda – sai do conjunto. Uma grande pena, mas que o permitiu gravar o ótimo Paris 1919 alguns anos depois. Seguiremos.

Sem mais delongas, vamos começar a ouvir o disco: A carga noise já entra pesada na primeira música, que leva o nome do disco. Uma espécie de distorção em um rock’n’roll que parece vindo direto da época de Elvis e Jerry Lee Lewis, a música é relativamente simples e rápida. É basicamente uma sobreposição de sons, a música normal e o barulho. Ainda assim, soa bem.

Já a segunda música, The Gift, é completamente experimental. Ela gira em torno de duas situações sonoras diferentes: De um lado, há a leitura de uma pequena estória – o presente, imagino eu – que dura por quase toda a música. De outro, segue uma melodia de guitarra completamente distorcida; ambas se complementam e parecem se refletir. São densas e pausadas. Porém, enquanto a voz se cala, a guitarra segue e introduz a música seguinte, minha favorita;

Lady Godiva’s Operation é uma das maiores músicas feitas no rock e a única de que eu sempre me lembrei desse disco. O som é soturno, quase assombroso, mas ainda assim relativamente leve. Se o peso, na minha concepção, é um som denso verticalmente, o dos caras do VU é denso na horizontal. É complexo, cheio de camadas e nuances. As distorções por vezes se misturam e formam novos sons indistinguíveis em sequencia. As letras num misto de canto e fala, só circulam a atmosfera. Fazendo referencia direta ao titulo da faixa – é sobre, na primeira metade, Lady Godiva e, na segunda, uma operação – tem quebras súbitas que só ajudam a assustar. É talvez a música mais angustiante daquela geração. É sufocante e autodestrutivo como Nine Inch Nails e ainda assim leve de uma maneira macabra. Não parece haver dor alguma ali, quase numa operação anestesiada, as coisas soam etéreas.

Depois o disco segue com outras 3 faixas mais “tradicionais” de rock. Todas mantêm o mesmo padrão de “barulhos” das outras músicas, marcando muito todo o andamento e ritmo das peças. Soam bem, com alguns trabalhos muito interessantes nas guitarras. Não existe elo fraco no disco. Ele é sucinto e sabe a hora de parar.

O que mais me impressiona é como o trabalho estava a frente do seu tempo. Ele parece vindo diretamente do final dos anos 80, quando o noise rock começou a ganhar mais força. Já usam completamente dos ruídos como base pra sons muito interessantes 20 anos antes do resto da maioria das pessoas. Não soa forçadamente de vanguarda e nem pedante. É rock direto na lata só que usando desses sons “descartáveis” pra fazer algo novo. Uma reciclagem sonora.

Comparativamente, também usou mais deles do que o do Sonic Youth. Talvez por ser assumidamente mais experimental ou por ser feito por uma banda mais talentosa musicalmente falando – não é que eu não goste da juventude sônica, eu adoro, mas Lou Reed e John Cale são dois músicos geniais – aqui a coisa é bem mais madura. É calculada até nos mínimos detalhes e soa naturalmente artificial.

*

É isso gente, mais uma edição do É NOISE! saiu do forno. Espero que vocês gostem. Como eu havia dito, os discos dessa coluna vão ser upados especialmente pra você! Além disso, segue o grooveshark de todos os dias, além do link da nossa página no facebook! E tá ai o download do MEGA.

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Black Moth Super Rainbow (e um pequeno informe)

Antes de qualquer coisa, gostaria de colocar no papel (ou na tela) algumas coisas: sinto muito que a Garagem tenha perdido a sua certa frequência de posts, parte da culpa disso é minha, pois mesmo nas horas que eu podia escrever eu preferi fazer outras coisas. Queria agradecer a todos os nossos novos “curtidores” da Garagem no Facebook, conseguimos com algumas “estratégias de marketing” dobrar o nosso número anterior, espero que todos vocês continuem presentes no Facebook e agora que eu planejo essa “retomada” da Garagem fiquem presentes acompanhando o blog também.

O tempo passou e a Garagem tá quase fazendo um ano, agora em fevereiro a Garagem (apelidada de LA GARAJE) completa seu primeiro ano de vida. Mas esse melodrama todo de aniversário a gente deixa para outro momento. Para agora,

Show do BMSR

Show do BMSR

vamos ficar com uma tentativa nova de postagem (que já foi feita pelo Gabriel), vou falar não de um disco em especial mas sim de uma banda: Black Moth Super Rainbow.

Esse nome totalmente bizarro já dá uma base para entender a loucura que é o som deles. Diretamente de Pittsburgh, Black Moth Super Rainbow (BMSR) é um projeto experimental de música pop e psicodélica. Desde a sua formação em 2003, todos os seus discos foram lançados de forma independente. Agora em 2012, eles lançaram um disco com ajuda de crowd funding pelo Kickstarter.

Ainda que reconhecida na cena psicodélica/experimental, BMSR nunca foi uma banda que “estourou”, ainda mais que os membros preferem se manter distanciados da mídia. Eles então acabaram criando uma aura, por assim dizer, de mistério em torno de suas identidades e de seus projetos.

Essa imagem orquestrada por eles serve para complementar o seu som, que é basicamente o abuso de equipamentos eletrônicos analógicos (o vocoder e o mellotron sendo os mais presentes), distorções, reverb, vozes agudas até o talo e graves impactantes, criando assim uma trilha sonora perfeitamente psicodélica que te joga dentro de uma viagem de cogumelos e DMT.

BMSR tem uma história muito prolífica de lançamentos, começando com o disco Falling Through a Field, Black Moth Super Rainbow (antes conhecida por Satanstompincaterpillars) começou uma viagem que se mantém até hoje. Meus destaques para esse disco são as faixas I think its beautiful that you are 256 colors too e Dandelion Graves. Em 2004, eles já lançam o disco Start a People que contém duas faixas do primeiro disco.

Versão de pelúcia do disco Eating Us

Versão de pelúcia do disco Eating Us

Em 2007 porém, eles lançam o seu álbum mais importante e de maior reconhecimento, Dandelion Gum. As primeiras edições em vinil até vinham com uma capa que tinha cheiro de chiclete! Nesse disco as faixas que eu acredito que mereçam mais destaque são: Fore

ver Heavy, uma faixa de abertura extremamente ácida que já provoca os ouvidos de quem está escutando. Outras duas faixas seriam Lollipopsichord e Sun Lips que foi a primeira música do BMSR que virou clipe (assista ao clipe logo mais abaixo).

E agora chegamos na história mais recente de Black Moth Super Rainbow, com o lançamento de seus últimos dois discos, Eating Us e Cobra Juicy de 2009 e 2012 respectivamente. O álbum de 2009 novamente reflete a excentricidade da banda, pois as primeiras edições vinham embaladas em um pacote de pelúcia. Cobra Juicy, o álbum mais recente, também teve sua excentricidade: ele vinha acompanhado de uma máscara de laranja. Nesse último disco nota-se uma prevalência do pop em detrimento do psicodélico, em faixas como Windshield Smasher, Hairspray Heart e Gangs in the Garden essa transição fica bem evidente.

Então aí está, Black Moth Super Rainbow. Ainda que tenha se tornado mais pop, as influências psicodélicas e as letras que tratam de um “descolamento” do mundo continuam presentes no som deles. Não posso esquecer também de comentar dos  projetos solo dos membros (que não são raros), sendo um bom exemplo o líder da banda, Tobacco, que já lançou uma série de discos, singles e remixagens.

Colecionável do disco Cobra Juicy

Colecionável do disco Cobra Juicy

Esse formato de texto é relativamente novo para mim então gostaria de receber um feedback de vocês leitores. A participação de vocês é muito importante para que nós possamos saber o que fazer e o que não fazer.

Como de praxe segue o link da nossa página no Facebook: http://www.facebook.com/garagemsuburbana

E também o soundcloud da banda, onde você pode ouvir um monte de faixas do BMSR e do Tobacco: https://soundcloud.com/black-moth-super-rainbow

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dEUS – The ideal crash

O rock é internacional. A Bélgica, portanto, não é só terra dos Waffles, Smurfs e Tintin. É também a casa de uma das melhores bandas dos anos 90: dEUS. Apesar de seu nome “excêntrico” e tendência a experimentação, a banda conseguiu fazer sucesso, tendo vendido mais de 250 000 cópias só do seu álbum de 1999, The Ideal crash. E é desse pequeno sucesso oriundo da capital dos Flandres que vamos falar!

The Ideal Crash, é bom salientar, foi o trabalho mais acessível da banda até aquele dado momento. “Famosa” por trabalhar com experimentações pesadas, influenciadas por grandes mestres como Zappa e Cpt Beefheart, a banda não era exatamente o que chamamos de Easy-listening. Com o tempo, os rapazes – que sobraram da formação original – conseguiram canalizar o seu som em algo mais digerível ao grande público. E isso não significa uma piora, pelo contrário.

Misturando guitarras sujas, vocais alterados e toques de música eletrônica beirando o noise, TIC é uma obra prima. Sem perder a consistência, o álbum viaja por suas 10 faixas, sendo cada uma merecedora de algumas chances para ser escutada.

Com temas ligeiramente metafísicos e abordando o conceito de normalidade, a banda praticamente fala sobre si mesma. Fazendo um ode ao estranho e anormal – falando até sobre sonhos – todo o disco parece um testamento da capacidade técnica e artística dos membros. Abrangendo diversas novas influências, a banda consegue manter sua postura e põe-se como uma opção elegante dentro da música alternativa.

Variando entre suítes mais pesadas, lembrando bandas como Sonic Youth, até momentos mais espaçados, com a presença maior da música eletrônica – soando de maneira bem mais ímpar – a banda vai construindo sua sonoridade ao longo do disco; ondulando, crescendo e diminuindo o tempo, com quedas abruptas e subidas acentuadas, o álbum todo soa como um sonho.

Um semi-axioma da música, bem infeliz por sinal, é de que nada se cria e tudo se copia. Ainda que seja verdadeiro em muitos casos, não é verdade. Não se cria nada ao copiar uma coisa. Mas na junção e experimentação em cima de outras já estabelecidas, é daí que o novo saí. E ainda que dEUS não esteja no seu auge experimental, a banda ainda assim continua estabelecendo sua sonoridade e temática, uma das mais interessantes do rock moderno.

Beirando a perfeição, The Ideal Crash é, sem dúvida, uma das maiores obras dos anos 90. Qualquer um que se interesse por rock, ou qualquer tipo de experimentação deve dar uma chance ao disco. Eu diria mais de uma, aliás, pois cada vez que o ouço, tenho a sensação de que menos o conheço.

9.5

E como é de praxe, vou lembrar vocês de curtirem – ou revisitarem – a nossa página do facebook. Sempre postamos vídeos e notícias do mundo da música, além de linkarmos nossos posts.  Não dá pra deixar aquele stream esperto do grooveshark!

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