Arquivo do autor:Guilherme Mota

Soft Machine – Fourth (1971)

Por que não o Third, e sim o Fourth? Por que explicar isso logo de começo? O porque do Fourth: simplesmente por ser o meu favorito e também o disco de mudanças no Soft Machine. E deixar isso claro, logo de início, por quê? Devido à resenha anterior, quis experimentar; passar pro início o que havia deixado pro final. Tendo me debruçado sobre quase todos os ‘porques’ da língua portuguesa, atenho-me agora ao disco, esclarescendo um pouco a atmosfera do quarto disco da banda.

“Third” (1970) é o mais famoso disco do Soft Machine, turning point, um grande mergulho no Jazz.“Fourth” não é diferente. É mais jazz, melhor produzido; atilado.

Último disco a ter Robert Wyatt na bateria, e o primeiro sem seus vocais. Primeiro disco inteiramente instrumental. Passo ainda maior no mundo do Jazz, fixando de vez o Cantenburry sound no prog-jazz (ao lado do Caravan, Soft é o maior expoente desse cena), porém fugindo um pouco pelo elevado tom jazzístico.

Falando propriamente do “Fourth”, é até difícil encontrar palavras que encaixem numa abertura como a desse disco. “Teeth” é o nome do primeiro petardo. Introdução no baixo, riff espetacular…. Tantos timbres, sensações, acontecem logo de início. Vamos de jazz-rock aos instrumentos de sopros que lembram Charles Mingus, passando pelo progressivo e sintetizadores “grunhindo”.

Não posso deixar de destacar o excelente trabalho dos sopros, utilizados muitas vezes com uma roupagem diferente da usada convencionalmente do Jazz de então (mais próxima do Fusion). Sem nunca esquecer da, não menos excelente, linha de baixo de Hugh Hopper; marcando, conduzindo, indo do Jazz ao Rock.

A segunda faixa, “Kings And Queens” é tão espetaculosa quanto a primeira. Sem palavras. O auge do free-jazz chega em Fletcher`s Blemish. Sopros urrando, zumbindo um com outro. Mike Ratledge, e seu piano, fazendo uma base excelente.

As últimas 4 faixas, na verdade são uma só: Virtually. Novamente ficamos de ouvidos colados, seguindo os dedos de Hugh Hopper correndo o Baixo; solo incrível. A utilização de efeitos nos sopros, no órgão, e distorção no baixo, dão um ar diferenciado, tornando complicada a rotulação da banda.

“Fourth”, sem dúvida, marcou a banda. Enterrou de vez o passado beatnik (percebido pelo próprio nome da banda). Significou um passo a frente do Cantenburry sound, criando uma identidade própria no meio do Progressivo, Jazz Fusion, Jazz-rock, Jazz-prog, e outras infinidades de rótulos que pouco servem de parâmetro. Após esse disco, Robert Wyatt saiu da banda, seguiu carreira solo e formou o Matching Mole. O Soft perdeu um exímio baterista, mas como podemos ouvir nos discos seguinte, “Fifth” e “Six”, a banda continua coesa e criativa. Contudo, está em Fourth o ápice da banda.

Depois deles surgiram inúmeras bandas que hoje são chamadas de future-jazz, nu-jazz, entre outros rótulos infindáveis. Ouvindo algumas delas com calma, torna-se evidente a influência dessa máquina louca e incadescente.

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Uriah Heep – High And Mighty (1976)

Em 1976, o Uriah Heep vivia uma fase conturbada na carreira. Apesar do relativo sucesso conseguido com o disco antecessor, “Return To Fantasy”, já não era a mesma banda. Conflitos internos permeavam o universo sonoro, críticas pesadas recaiam sobre seus álbuns recentes. Mudara o som, e formação. Inclusive, este é o último álbum a ter David Byron nos vocais e John Wetton (ex- King Crimson) no baixo.

High and Mighty não é, nem de longe, o melhor trabalho do grupo (famoso mundialmente com os álbuns “Look At Yourself” e “Demons and Wizards”), nem o mais consistente. Entretanto, marcou uma grande mudança. Enquanto algumas faixas são mais experimentais, outras flertam mais com o pop, adaptando marcas registradas da banda: backing vocals soando como corais; órgão hammond, sonoridade típica dos anos 1970; e uma linha de baixo, que apesar de não dizer muito nesse disco, continua criativa.

Uriah Heep em 1976. Pôster de um show na Alemanha. Da esquerda para direita, em pé, estão: Lee Kerslake, John Wetton e Mick Box. Sentados, David Byron e Ken Hensley.

O disco não poderia começar de maneira mais diferente: sem Byron nos vocais. Estes são divididos entre Wetton e Ken Hensley (órgão, guitarra, vocal, letras. O “cara” da banda). One Way or Another é um hard rock um pouco diferente do, costumeiramente, feito pela banda. Mas não deixa de ter um belo diálogo entre a guitarra de Mick Box e o órgão.

Mantendo a linha ‘hard-experimental’, vem “Weep In Silence”. Faixa que começa com um solo de guitarra, digamos, desesperador. Enquanto o órgão, ao fundo, produz sons semelhantes à suspiros e sussurros, a guitarra devasta com um solo distorcido, mas melódico. Cria-se um ambiente bastante condizente com o título da faixa.

Essas são, sem dúvida, as melhores faixas do álbum. Da terceira faixa (“Misty Eyes”) em diante, reina a, já comentada, inconsistência. Contudo, não posso deixar de destacar faixas como “Can`t Keep A Good Band Down”, que apesar de ter um refrão pop e bobo, é um reflexo da relação banda/crítica musical/fãs. Outra grande música é “Footprints In The Snow”, uma excelente balada que não fica atrás das mais clássicas compostas pela banda. “Can`t Stop Singing” segue a mesma fórmula de “Can`t Keep A Good Band Down”. Chega a ser enjoativa após algumas audições. A excelente “Confessions” encerra bem o álbum. Mais nada a declarar.

Ora, mas então por que resolvi falar sobre esse disco?, perguntarão alguns leitores. Simples, direi eu, além de ser um dos meus favoritos (apesar de tudo), é de suma importância para banda. Após ele, Byron saiu da banda. Parecia ser o fim. John Lawton (ex- Lucifer`s Friend) assume os vocais. E, surpreendentemente, a sua primeira bolacha com a banda é espetacular! “Firefly” de 1977 marca o renascimento comercial e musical do Uriah Heep. Bom, mas isso fica pra outro post…

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E tem também aquele link pro Grooveshark, onde você pode ouvir o disco todo.

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Enrico Pieranunzi – Permutation (2012)

   Enrico Pieranunzi é um dos maiores e melhores nomes do jazz atualmente. Nascido na Itália do pós-guerra, Pieranunzi concilia muito bem o toque clássico com o jazz europeu e, é claro, as influências de jazzístas memoráveis ao piano; tais como Bill Evans e McCoy Tyner (pianista da formação clássica do quarteto de John Coltrane).

Em Permutations, seu mais novo trabalho, Enrico se junta ao baixista Scott Colley e ao jovem baterista Antonio Sanchez (jovem, porém impressionante. Deixo a indicação de seu primeiro álbum solo: ‘Migratio’, de 2010) para criar um grande trabalho que conta somente com composições próprias de Pieranunzi.

Ouvindo esse disco, percebemos o quão introsado o trio está. Com arranjos incríveis e uma ótima conversação entre os instrumentos, percebe-se a inspiração fluindo pelos três…Álbum profundamente marcado pelo post-bop, como podemos sentir desda primeira faixa:


“Strangest Consequences”, abre de forma maestral o disco. Ótimo exemplo de uma cozinha eficiente, composta de uma bateria pulsante (característica presente em todo o álbum) e uma base de baixo que acrescenta uma sobrevida ao solo de piano.


Mais post-bop nos aguarda nas próxima faixas; destaco a segunda. Com uma linda frase de piano, Pieranunzi nos mostra como usar as duas mãos em uma canção de somente três instrumentos. Parece-me, em alguns casos, que ele tem mais do que duas mãos. Em todo caso, são duas, que valem por muitas!


Após três “pancadas” sonoras, vem a apaixonante “Distance From Departure”. Primeira balada do disco. O baixo se sobressai nessa faixa nos apresentando um solo rico em vida e emoção. Destaco a bateria de Sanchez e as baquetadas contínuas nos pratos.

O álbum segue sem perder a beleza em momento algum. Um dos momentos mais marcantes encontra-se na incrível frase principal de piano, que em sua primeira aparição, introduz ao solo de baixo em ‘Horizontes Finale’.

Outra balada cheia de sentimento nos espera em “Within The House Of Night”, com sua introdução a piano solo e, após alguns segundos, entra o baixo repetindo a melodia do piano. Bateria suave… Sanchez larga a baquete e cria um ambiente único ao fundo.

Músicas muito bonitas, melódicas, arranjos incríveis e um magnífico contraste entre músicas aceleradas e baladas essenciais (como no final de “Whithin The House Of Night” e o começo de “The Point At Issue”. Um retorno a “pancadaria” sonora inicial). Poderia ouvi-lo durante horas e falar sobre ele, não por tanto tempo, mas por mais tempo e caracteres que disponho. Portanto, fica talvez como o melhor álbum de 2012 na categoria jazz, no mesmo patamar do excelente e muito interessante ‘The Continents: Concerto For Jazz Quintet e Chamber Orchestra’, mais recente trabalho de Chick Corea.

Sendo a nota ‘10’ a perfeição, dou um 9. Pondo-o, assim, na categoria dos melhores.

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Dave Brubeck Quartet – Time Out (1959)

Tentem imaginar o mundo ocidental sem o ano de 1959. Façam um esforço. Sem me alongar fazendo listagem de eventos cito somente um: Cuba. Voltando ao que aqui nos interessa, este talvez tenha sido o ano de maior importância para o Jazz ( quando comecei a me interessar por jazz e não sabia nomes, discos, fatos, orientava-me pelo ano. Baixei muitos discos somente pelo ano de lançamento: 1959). Nesse longínquo ano Miles Davis fez o “Kind of Blue”, Charles Mingus o “Ah Um” e “Dinasty” e, é claro, Dave Brubeck e seu quarteto marcam seu espaço na história do jazz e da música ocidental contemporânea.

“Time Out” é um disco excepcional. Lembro-me da primeira audição, foi algo incrível. Não ouvia jazz (ainda) com frequência e esse álbum me arrastou para um novo universo sonoro. Talvez já tivesse ouvido “Take Five”, afinal quem não? até quem não gosta de jazz reconhece a batida 5/4 bem marcado no piano que se repete durante toda a música. Impossível esquecer Paul Desmond e seus dois temas no saxofone. Um senhor solo de bateria que mantém perfeitamente o tempo sem em momento algum se perder.

Apesar de “Take Five” tocar, até hoje, incessantemente em filmes e afins, continua sendo uma grande música e, muito atual. Entretanto, a canção que mais atrai no disco é “Blue Rondo À La Turk”, uma grande demonstração do excepcional baterista Joe Morello (debilito grande parcela no experimentalismo de Time Out à Morello). Blue Rondo é uma mescla de jazz e clássico com batida tradicional turca.

Mais de cinquenta anos depois, sabemos que foi acertada a decisão de lançar esse álbum, porém Dave Brubeck sofreu resistência da crítica e da própria gravadora. Sua música utilizava tempos diferentes do comum ao jazz (4/4). A ideia para capa era uma pintura (incomum para época). Contudo o projeto seguiu e saiu. Apesar de romper com o tempo “oficial” do jazz (que é o mesmo para o blues e o rock), Brubeck em “Three To get Ready” utiliza ritmos “primos” ao jazz: waltz e foxtrot (famosos nos anos 20 e 30), passando do tempo ¾ para o 4/4. Essa música demonstra bem a sensibilidade do quarteto na utilização de ritmos e tempos não usuais.

Obra imprescindível para jazz e o estudo do ritmo no jazz, “Time Out” marcou a música da segunda metade do século XX e ajudou a delinear o caminho para o jazz do final dos anos 1950 e toda a década de 1960. Cool-jazz de primeira!

Ps: Havendo pretensão de obter fisicamente este álbum, indico a edição tripla (2 cds e dvd) de 50 anos. Ótima remasterização, encarte recheado e o disco dois contém apresentações de Brubeck e quarteto ao vivo em Newport nos anos de 1961, 63 e 64. O dvd tem um entrevista recente com Dave Brubeck contando a história do álbum. Vale a pena!

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Lo-Fi – Nano (1998)


     Se você acredita que na atmosfera musical Islandesa só há Björk e, na última década, Sigur Rós. Você está enganado. Há um DJ chamado Thorhallus. Integrante único do Lo-Fi e dono do selo Thule.

Com alguns convidados e um ótimo vocal feminino (infelizmente não encontrei o nome da vocalista na internet), o Lo-Fi lançou somente um disco. Contudo é um disco altamente recomendado e, infelizmente, difícil de se encontrar.

Em seus quarenta e sete minutos (mais ou menos) de duração, “Nano” nos conquista com uma ótima fusão da música eletrônica com outros estilos. Um trip-hop bem ao estilo Portishead de ser. Definido muito bem por Fábio Massari como “Portishead submarino”(MASSARI, Fabio. Rumo à Estação Islândia.  São Paulo: Conrad, 2001, p. 209).

Por um lado o álbum tem seu ponto fraco na falta de linearidade; há tanta riqueza de influências e faixas diferentes que acaba pecando quando se fala em um disco linear. Por outro lado, a criatividade e uma ótima utilização de sons que lembram a música indiana e áraba na faixa “1000 year from now”, dão uma riqueza única ao disco.

Além da faixa acima citada, outro grande destaque é a música “Velvet”. Música composta por uma guitarra blues-rock com piatadas de jazz. Ótimo solo. Vibrante!

Em “Death of a nano”, Thor nos mostra um som recheado de sintetizadores, bem arraigado nos primórdios da música eletrônica. Voltamos à década de 1970 e suas experiências com sintetizadores e sons ambient.

O álbum (e a curta vida do Lo-Fi) encerra com a faixa “Remains”. Ótimo trip-hop com ambient.

Após o lançamento de “Nano”, a banda muda de nome. Se chamaria Nano. Mais uma vez minhas pesquisas não geraram frutos. Não pude, portanto, ouvir, nem conhecer a banda Nano.

Obs: Se algum leitor quiser acrescentar informações, sinta-se em casa.

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