Arquivo mensal: novembro 2012

Flores de Bach – Cosmogonía de los Valles

Nós, da Garagem, estamos muito felizes de poder publicar a primeira resenha de um de nossos leitores, o Vitor Hugo Toffoli. Se você gosta de escrever resenhas e não tem onde publicá-las ou então quer aparecer no blog, é só nos enviá-la pela nossa página do Facebook. Então, segue agora a resenha do disco Cosmogonía de los Valles, da banda Flores de Bach, pelo Vitor Hugo Toffoli.

“Os Florais de Bach têm sido usados nos últimos 80 anos mundialmente como terapia complementar. Com as 38 essências, você poderá harmonizar suas emoções, trabalhando sutilmente para restaurar o equiíbrio emocional do seu ser”.  Essa afirmação soaria como uma baita  mentira, mas depois de ouvir “Cosmogonía de los Valles”, EP lançado pelos chilenos do Flores de Bach essse ano, confesso que estou muito inclinado a acreditar nessa premissa.

Formado em 2008, na cidade de Valparaíso, no Chile, a banda vem  acompanhando a cena de bandas indie da região, como Lluvia Morada, Niña Ciboulette, entre outras. O trio, composto por  Felipe Ugalde (voz, guitarra), Felipe Valdivieso (voz, baixo), Franco Milesi (bateria, percussão), faz um shoegaze que, nesse EP, assume diversas facetas quando unido ao folk rock e distorções que ecoam o sentimento envolvente e mutante da obra.

Folcados em seus pés, como todo o bom shoegazer, a banda entrega um EP com quatro faixas que desenvolvem o estilo permeado de passagens acústicas capazes de expandir-se em conjunto com os vocais (sublimes) na atmosfera infinita criada pelo som das guitarras, com um baixo presente de dar orgulho a Graham Bailey (The Sound). O ouvinte pego nessa atmosfera é transportado para um ambiente de dispersão contemplativa que aos poucos assume um carater místico, sendo que aqui desfrutamos do misticismo urbano de Valparaíso. Em cada verso cantado, é possível sentir  a nostalgia (“arriba en el cerro, los pajaritos brillan y cuando llega el viento, me escondo en la baía”), o presente sem fim na vida urbana e a felicidade que se perpetua em um meio tão volátil, a qual adquirimos a cada ano em que vivemos em nossos mundos pequenos de grandes significados (hoy iremos a andar allá en el mar /a ver el atardecer /es un carnaval).

A sonoridade produzida em conjunto com as letras permitem que a experiência se mantenha ao longo de quatro faixas com menos de  quatro minutos ( Ainda não consigo acreditar na duração dessas músicas. Para os físicos de plantão, esse ep pode ser usado para experimentar a teoria da relatividade), tornando a experiência mais marcante ainda. Pois afinal, estou aqui lhes falando de 4 músicas com média de 3 minutos, os quais são extendidos em um universo de contemplação permeado de coros, ecos de guitarra, e pela mais pura felicidade.  Os mesmos três minutos que podem fazer o nosso dia valer a pena no mar de incertezas que o cotidiano ironicamente nos coloca à deriva.

Esse EP vem como uma das melhores surpresas do ano. A sonoridade criada pelo Flores de Bach deu a essas quatro canções pequenas a possibilidade de marcar várias vidas, crescendo constantemente até adquirirem todos os contornos do que chamamos instintivamente de clássico. Mesmo que o mundo talvez nunca venha a saber disso.

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Neil Young – After the gold rush

After the gold rush, devo dizer, é um clássico. Não há porque omitir essa informação, visto que ela já deve(ria) ser de senso comum. Vale ressaltar, porém, que esse não é um clássico pura e simplesmente por ser tratar de uma obra do grande Neil Young. Até porque o canadense de cara fechada já teve alguns trabalhos bem menos – digamos – importantes. Essse é um Clássico com C maiúsculo por ser, sem medo de exageros, um dos discos mais emocionantes da história.

Baseado em um roteiro de mesmo nome, o disco foi originalmente concebido como a trilha sonora do possível filme, que ,por motivos que desconheço, nunca viu a luz do dia. Felizmente, com a exceção de duas faixas, After the Gold Rush não se limitou a ser uma espécie de trilha sonora fantasma. Se tornou, na verdade, um álbum íntimo e pessoal, em que Neil expõe e trata de algumas de suas maiores preocupações.

Com isso dito, há de se ressaltar a dualidade sonora do disco. Contando com duas faixas elétricas, além das tradicionais músicas acústicas, fica evidente o tom que se manteria por boa parte da carreira do lider dos Crazy Horse. Uma particularidade, aliás, é a ausência da sua tradicional banda de apoio, o que pode explicar o tom mais leve do disco.

Assim, em meio a uma rara atmosfera, o disco se abre com a lamuriosa Tell me Why. A canção, tristonha e melancólica, é reflexo de várias perguntas e questionamentos recorrentes de Neil, sem uma direção e em todas ao mesmo tempo. Em seguida, vale ressaltar a trinca “After the gold rush/Only love can break your heart/Southern Man” que começa com uma das baladas country mais emocionadas e inspiradas da carreira de Neil e termina com uma das músicas mais pesadas do disco.

After the Gold Rush, em especial, é a a faixa mais bonita de todo o disco. Com suas mensagens ambientalistas, ela já estava a par com os mesmos problemas que nos praguejam hoje. Além disso, em “thinking about what a friend had said, I was hoping it was a lie” Neil põe uma das frases mais abertas e profundas de sua carreira. Todos nós, sem exceções já tivemos que nos deparar com aquela informação ambígua, dentre a verdade que dói e a mentira que afaga.

Chilax

A própria Southern Man também é das principais do álbum. Com sua letra polêmica, ela lembra do passado sangrento e abusivo do Sul dos Estados Unidos com seus filhos, indo contra a própria noção de igualdade e liberdade que – na teoria – até hoje sustentam a nação. A música, que tornou Neil numa persona non grata para muitos sulistas, é das mais marcantes e carregadas do álbum, contando inclusive com um dos solos primorosos de Young na guitarra elétrica.

Porém, apesar de sua grande carga emocional, o álbum é bem contido, o que por vezes diminui seu brilho. Assim, apesar de conter diversas músicas clássicas, o disco vai lentamente perdendo seu ímpeto a partir de sua metade, o que leva a crer que funcionasse melhor como uma coleção de singles. O momentum perdido desvaloriza as músicas finais, que, apesar de tão boas quanto as primeiras, acabam perdendo o foco do ouvinte por conta de sua sonoridade similar.

De qualquer maneira, o disco prossegue com a qualidade usual do mestre canadense. Portanto, sem dúvidas recomendo esse álbum a qualquer pessoa que se interesse por música popular. Apesar da voz “incomoda” (para alguns, não no meu caso) de Neil e da perda de impacto, esse é um dos discos que sempre merecerá ser revisitado, nem que apenas para relembrar e reaflorar as emoções que ali estão depositadas. Como disse no início da postagem, um Clássico com c maiúsculo.

Aproveito também pra deixar os informes de sempre: o link esperto pro stream no Grooveshark; e a nossa página do Facebook! E para finalizar, a novidade da vez! Pros interessados, nós do garagem criamos um grupo de facebook para falarmos sobre música (ou não)!

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Uriah Heep – High And Mighty (1976)

Em 1976, o Uriah Heep vivia uma fase conturbada na carreira. Apesar do relativo sucesso conseguido com o disco antecessor, “Return To Fantasy”, já não era a mesma banda. Conflitos internos permeavam o universo sonoro, críticas pesadas recaiam sobre seus álbuns recentes. Mudara o som, e formação. Inclusive, este é o último álbum a ter David Byron nos vocais e John Wetton (ex- King Crimson) no baixo.

High and Mighty não é, nem de longe, o melhor trabalho do grupo (famoso mundialmente com os álbuns “Look At Yourself” e “Demons and Wizards”), nem o mais consistente. Entretanto, marcou uma grande mudança. Enquanto algumas faixas são mais experimentais, outras flertam mais com o pop, adaptando marcas registradas da banda: backing vocals soando como corais; órgão hammond, sonoridade típica dos anos 1970; e uma linha de baixo, que apesar de não dizer muito nesse disco, continua criativa.

Uriah Heep em 1976. Pôster de um show na Alemanha. Da esquerda para direita, em pé, estão: Lee Kerslake, John Wetton e Mick Box. Sentados, David Byron e Ken Hensley.

O disco não poderia começar de maneira mais diferente: sem Byron nos vocais. Estes são divididos entre Wetton e Ken Hensley (órgão, guitarra, vocal, letras. O “cara” da banda). One Way or Another é um hard rock um pouco diferente do, costumeiramente, feito pela banda. Mas não deixa de ter um belo diálogo entre a guitarra de Mick Box e o órgão.

Mantendo a linha ‘hard-experimental’, vem “Weep In Silence”. Faixa que começa com um solo de guitarra, digamos, desesperador. Enquanto o órgão, ao fundo, produz sons semelhantes à suspiros e sussurros, a guitarra devasta com um solo distorcido, mas melódico. Cria-se um ambiente bastante condizente com o título da faixa.

Essas são, sem dúvida, as melhores faixas do álbum. Da terceira faixa (“Misty Eyes”) em diante, reina a, já comentada, inconsistência. Contudo, não posso deixar de destacar faixas como “Can`t Keep A Good Band Down”, que apesar de ter um refrão pop e bobo, é um reflexo da relação banda/crítica musical/fãs. Outra grande música é “Footprints In The Snow”, uma excelente balada que não fica atrás das mais clássicas compostas pela banda. “Can`t Stop Singing” segue a mesma fórmula de “Can`t Keep A Good Band Down”. Chega a ser enjoativa após algumas audições. A excelente “Confessions” encerra bem o álbum. Mais nada a declarar.

Ora, mas então por que resolvi falar sobre esse disco?, perguntarão alguns leitores. Simples, direi eu, além de ser um dos meus favoritos (apesar de tudo), é de suma importância para banda. Após ele, Byron saiu da banda. Parecia ser o fim. John Lawton (ex- Lucifer`s Friend) assume os vocais. E, surpreendentemente, a sua primeira bolacha com a banda é espetacular! “Firefly” de 1977 marca o renascimento comercial e musical do Uriah Heep. Bom, mas isso fica pra outro post…

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E tem também aquele link pro Grooveshark, onde você pode ouvir o disco todo.

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