Arquivo mensal: agosto 2012

dEUS – The ideal crash

O rock é internacional. A Bélgica, portanto, não é só terra dos Waffles, Smurfs e Tintin. É também a casa de uma das melhores bandas dos anos 90: dEUS. Apesar de seu nome “excêntrico” e tendência a experimentação, a banda conseguiu fazer sucesso, tendo vendido mais de 250 000 cópias só do seu álbum de 1999, The Ideal crash. E é desse pequeno sucesso oriundo da capital dos Flandres que vamos falar!

The Ideal Crash, é bom salientar, foi o trabalho mais acessível da banda até aquele dado momento. “Famosa” por trabalhar com experimentações pesadas, influenciadas por grandes mestres como Zappa e Cpt Beefheart, a banda não era exatamente o que chamamos de Easy-listening. Com o tempo, os rapazes – que sobraram da formação original – conseguiram canalizar o seu som em algo mais digerível ao grande público. E isso não significa uma piora, pelo contrário.

Misturando guitarras sujas, vocais alterados e toques de música eletrônica beirando o noise, TIC é uma obra prima. Sem perder a consistência, o álbum viaja por suas 10 faixas, sendo cada uma merecedora de algumas chances para ser escutada.

Com temas ligeiramente metafísicos e abordando o conceito de normalidade, a banda praticamente fala sobre si mesma. Fazendo um ode ao estranho e anormal – falando até sobre sonhos – todo o disco parece um testamento da capacidade técnica e artística dos membros. Abrangendo diversas novas influências, a banda consegue manter sua postura e põe-se como uma opção elegante dentro da música alternativa.

Variando entre suítes mais pesadas, lembrando bandas como Sonic Youth, até momentos mais espaçados, com a presença maior da música eletrônica – soando de maneira bem mais ímpar – a banda vai construindo sua sonoridade ao longo do disco; ondulando, crescendo e diminuindo o tempo, com quedas abruptas e subidas acentuadas, o álbum todo soa como um sonho.

Um semi-axioma da música, bem infeliz por sinal, é de que nada se cria e tudo se copia. Ainda que seja verdadeiro em muitos casos, não é verdade. Não se cria nada ao copiar uma coisa. Mas na junção e experimentação em cima de outras já estabelecidas, é daí que o novo saí. E ainda que dEUS não esteja no seu auge experimental, a banda ainda assim continua estabelecendo sua sonoridade e temática, uma das mais interessantes do rock moderno.

Beirando a perfeição, The Ideal Crash é, sem dúvida, uma das maiores obras dos anos 90. Qualquer um que se interesse por rock, ou qualquer tipo de experimentação deve dar uma chance ao disco. Eu diria mais de uma, aliás, pois cada vez que o ouço, tenho a sensação de que menos o conheço.

9.5

E como é de praxe, vou lembrar vocês de curtirem – ou revisitarem – a nossa página do facebook. Sempre postamos vídeos e notícias do mundo da música, além de linkarmos nossos posts.  Não dá pra deixar aquele stream esperto do grooveshark!

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5 álbuns de 2012 que você deveria ouvir – parte 1

Nós, do Garagem Suburbana, estamos orgulhosos – ficamos com qualquer coisa – de anunciar um novo feature semestral para o nosso blog. Andamos pensando e decidimos fazer uma pequena lista, 5 discos pra cada um, de álbuns lançados nesse ano. Cada membro do blog, em posts separados, vai postar as suas escolhas e justificá-las. E se tudo der certo, de 6 em 6 meses nós faremos outros. Agora chega de papo!

Vos presento os 5 álbuns que você deveria ouvir, segundo Daniel!

1: BIG K.R.I.T – 4eva N a day

Como vocês já devem ter percebido, ou não, eu sou o membro do blog que mais gosta de rap. O rique também, mas isso não vem ao caso. Por isso, não poderia deixar de recomendar esse que é um dos melhores discos dos últimos tempos no hip-hop, não só deste nosso ano.

Com um flow sulista, uma temática caipira e um retrato da realidade do interior americano,   K.R.I.T mostra o porque de ser considerado uma das revelações do rap. Aliás, não é todo rapper que consegue lançar um álbum conceitual e ainda assim ter várias músicas dignas de serem singles. Recomendadíssimo.

2: Om – Advaitic Songs

Eu sei, eu sei, o Miguel já resenhou esse disco. O que vocês não sabem é que em um momento eu também já estive pra fazer essa resenha. Vou aproveitar essa deixa então pra re-recomendar o disco pra vocês, nossos leitores.

Como não sou nenhum connosieur de música mais pesada, não posso dizer se os riffs de Advaitic songs são inovadores. Mas que são hipnóticos e deliciosos de se ouvir, ah, isso são. Com uma pegada stoner misturada com música arábe, não têm como dar errado. Dessa vez dupla recomendação (minha e do Miguelito).

3: Constantina – Haveno

Antes que vocês reclamem – não vão, eu espero, porque são demais – ninguém disse que a lista precisa ser só de discos não resenhados. Então, moços e moças, ouçam o quarto disco da banda mineira Constantina.

Fazendo um post rock fino, do mesmo nível e até melhor do que muita banda gringa, os mineirinhos são do melhor da música brasileira atual. Então faça esse favor a você mesmo e deixe esse disco tocar enquanto você relaxa, curtindo uma paisagem ou até mesmo olhando pra parede. Vale a pena.

4: Camel Heads – Camel Heads

Outra banda brasileira puxada pro experimentalismo, o pessoal do Camel Heads realmente leva isso à sério. Fazendo um som quase ambiente, muito pautado na psicodelia.

Com guitarras etéreas, sons em várias camadas, a banda parece fazer um improviso premeditado. Estranho, eu sei. Mas não custa nada dar uma conferida. Se você é fã de música experimental com uma pegada brasileira junto de sons lá de fora, dê aquela conferida. Afinal de contas, temos que valorizar nossa música.

5: Maga Bo – Quilombo do Futuro

Um produto com uma cara completamente brasileira e com influências da música negra do mundo inteiro, Quilombo do Futuro se destaca dentro da música brasileira. Digo música brasileira porque o trabalho do produtor Maga Bo passa por tantos estilos diferentes e conta com participação de artistas tão variados que fica difícil classificá-lo.

Mas essa mistura de funk, rap, samba, sound system, reggae e tudo mais que você pode imaginar, funciona. E funciona muito bem. Aliás, nada que tenha algumas participações do BNegão e conte com uma produção tão apurada não dá certo. Muito recomendado pra qualquer um que se interesse em música negra da nossa terra Brasilis.

Então gente, essas foram as minha 5 recomendações de discos, lançados em 2012, que você deveria ouvir. Enquanto os outros membros não postam as suas listas, o que você acha de dar uma passada na nossa página do facebook?

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Zulu Winter – Language

Enfim estou de volta. Nesses últimos dias eu estava tendo uma certa dificuldade em concentrar minhas ideias e escrever um texto decente. Essa resenha foi pensada milhões de vezes antes de ser finalmente colocada no papel. Passado esse pequeno esclarecimento, vamos ao que importa.

Esses cinco caras de Londres vão tocar hoje (24/08) num dos maiores festivais de música da Inglaterra e do mundo, o festival de Leeds, o festival que já teve The Who, Pink Floyd, Rolling Stones, Nirvana e agora, entrando no rol de bandas que já passaram pelos palcos de Leeds : Zulu Winter.

Analisando a participação deles num festival desse calibre dá pra tentar concluir então que eles estão perto do auge de sua carreira, não é mesmo? Porém agora se surpreenda: eles montaram a banda em 2011! Com poucos shows e apenas um álbum lançado esse ano, Zulu Winter, aparece como uma das grandes revelações do ano.

Os caras do Keane estavam apostando no sucesso do Zulu Winter quando anunciaram que seriam eles que iam abrir os shows no Reino Unido do Strangeland Tour, a turnê do novo álbum do Keane.

No final de 2011 a banda já tinha assinado contrato com a PIAS Recordings (gravadora do dEUS) e no espaço de tempo de novembro de 2011 e fevereiro de 2012, eles já tinham lançado dois singles (Never Leave e We Should Be Swimming) e por fim lançando agora em maio o seu primeiro disco: Language.

Uma das coisas mais notáveis no álbum é a produção dele ser extremamente bem feita, nota-se que muito esforço foi colocado em cima do disco e que cada pequeno detalhe foi meticulosamente trabalhado. Porém resta saber se todo essa edição feita em estúdio não acabe obscurecendo a música deles ao vivo. Não estou dizendo que o som ao vivo tenha que ser exatamente igual ao estúdio, muito pelo contrário. O problema é quando a banda que você está assistindo nem parece ser aquilo que você ouviu em casa. Talvez seja esse o grande mal da tecnologia atual no campo musical.

Não se pode negar porém que Language é um álbum rico em texturas, o que se deve ao enorme papel dado ao teclado e aos efeitos nos vocais. Porém já no que diz respeito às melodias e aos ritmos ele não vai muito além do que já se espera do gênero “eletro-dance-indie”. Com o perdão da invenção do gênero musical.

Durante o álbum todo nota-se uma continuidade sonora, tudo é muito parecido, porém num bom sentido. Por pouco mais de 45 minutos você entra na vibe da banda, com as suas batidas dançantes e teclados que tentam criar uma atmosfera etérea. Porém algumas músicas se destacam, em especial: Key to My Heart, Words that I Wield e People That You Must Remember.

As letras em Zulu Winter possuem um papel mais secundário na música, se tornando apenas mais um elemento na colagem de sons. Elas então acabam ajudando a consolidar o “elemento dançante” que eles buscam.

Eu sinto que Zulu Winter tenta pegar um tanto do espaço aberto pela inovação de The xx, porém não expandem ou experimentam o suficiente para realmente se destacarem musicalmente. Como eles ainda estão começando é possível que amadureçam nos discos futuros. Experimentar. Essa é a palavra-chave para Zulu Winter.

No mais, Language é um bom álbum e que não pode passar despercebido por quem curte algo dançante porém suave e atmosférico. Categorizando então nesse estilo sonoro e avaliando entre os lançamentos de 2012, Zulu Winter – Language merece uma nota 7/10.

Segue abaixo o clipe de We Should Be Swimming. Não esqueçam de curtir a nossa página no Facebook! http://www.facebook.com/garagemsuburbana

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Samuel Úria – Nem lhe tocava.

Na terrinha também há rock. E folk. Os exemplos mais antigos são até ligeiramente conhecidos por nós, tupiniquins. Xutos e Pontapés e Rui Veloso, afinal de contas, já tocaram no Rock In Rio. Só que o que nos interessa nesse batpost e nesse batmomento é o novo lá em Portugal.

“Dar graças por dormir tão pouco
E tão descansado”

E Samuel Úria é um desses novos artistas. No final dos seus vinte ou começo dos trinta, o gajo é do colectivo Flor Caveira, o mesmo de outros como B.Fachada, e já têm certa experiência; com 5 cds lançados, Samuel não é exatamente um novato. Em “nem lhe tocava”, Samuel já exibe maturidade sonora e até mesmo certa experimentação entre gêneros.

Passando por rock, pop – e até fado – o álbum tem no folk um claro foco. Começando já com a música que dá nome ao disco,  ouvimos uma balada íntima e honesta que é , sinceramente, uma das melhores que ouvi nos últimos anos. E é nessa pegada, variando entre momentos “muito calmos” e “só calmos” é que o disco se desenvolve.

Com uma abordagem musical simples – destaque absoluto para a voz e o violão – o ponto forte do álbum é a sua virtuose lírica. Água de colônia da Babilônia é uma pequena confissão religiosa exclamando saudades à terra prometida. A faixa homônima – ela novamente – é um pequeno monólogo barra perfil de rede social.

O single, “Não Arrastes o meu caixão”, é uma pequena suíte pop, destacando-se novamente em sua lírica (sempre acompanhada pela voz suave de Úria). E ainda que o álbum soe ligeiramente similar,  vejo nisso um sinal de consistência e não repetição (uma linha bem tênue).

Ser uma perspectiva
Ter um disco falhado
Fazer contas à vida
Prestar contas ao fado

Mesmo remetendo à figuras variadas da música folk, Úria consegue fazer algo suficientemente diferente para se destacar. O seu sotaque, bem bonito, não é sua única diferença para a maior parte dos cancioneiros desse mundo. Seu andamento nas músicas, muitas vezes beirando as canções de ninar, acabam embalando e entorpecendo nossas mentes nos momentos mais propícios.

Um cantor assumido das vertentes mais caipiras da música “Sou neo-retro-redneck.”; Samuel não se limita ao ar campestre e consegue imprimir toda uma noção cosmopolita as suas músicas. Quer seja por cenários de fundo para suas breves estórias, ou até mesmo na sua maneira de falar, percebe-se com bastante facilidade que o rapaz – ou gajo – não é o tradicional cantor folk. Um verdadeiro neo-retro-redneck, afinal de contas.

Força a ser reconhecida, essa nova geração de músicos portugueses vêm se mantendo junto das tendências mundiais, ainda que sem muita identificação aos sons mais tradicionais da terrinha – o que não ocorre no Brasil. Caberá ao tempo avaliar os frutos desse grupo, mas já é claro que Samuel Úria não é apenas mais um dentre os outros patrícios de Lisboa.

Nem lhe tocava não é uma revelação, mas é um trabalho bem polido e tocante. Apesar de não ser o primeiro nem o melhor em nada, sem dúvidas Samuel Úria é um grande músico e compositor e tem tudo para dar ainda mais do ótimo que já vem dando.

8

Pra não perder o hábito, curtam a página da Garagem no facebook pra receber vídeos e notícias diárias. Ou quem sabe até concorrer em alguma promoção, como a do Mogwai que fizemos na semana passada! E também segue ai o link do stream pra boa parte do disco no grooveshark!

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Enrico Pieranunzi – Permutation (2012)

   Enrico Pieranunzi é um dos maiores e melhores nomes do jazz atualmente. Nascido na Itália do pós-guerra, Pieranunzi concilia muito bem o toque clássico com o jazz europeu e, é claro, as influências de jazzístas memoráveis ao piano; tais como Bill Evans e McCoy Tyner (pianista da formação clássica do quarteto de John Coltrane).

Em Permutations, seu mais novo trabalho, Enrico se junta ao baixista Scott Colley e ao jovem baterista Antonio Sanchez (jovem, porém impressionante. Deixo a indicação de seu primeiro álbum solo: ‘Migratio’, de 2010) para criar um grande trabalho que conta somente com composições próprias de Pieranunzi.

Ouvindo esse disco, percebemos o quão introsado o trio está. Com arranjos incríveis e uma ótima conversação entre os instrumentos, percebe-se a inspiração fluindo pelos três…Álbum profundamente marcado pelo post-bop, como podemos sentir desda primeira faixa:


“Strangest Consequences”, abre de forma maestral o disco. Ótimo exemplo de uma cozinha eficiente, composta de uma bateria pulsante (característica presente em todo o álbum) e uma base de baixo que acrescenta uma sobrevida ao solo de piano.


Mais post-bop nos aguarda nas próxima faixas; destaco a segunda. Com uma linda frase de piano, Pieranunzi nos mostra como usar as duas mãos em uma canção de somente três instrumentos. Parece-me, em alguns casos, que ele tem mais do que duas mãos. Em todo caso, são duas, que valem por muitas!


Após três “pancadas” sonoras, vem a apaixonante “Distance From Departure”. Primeira balada do disco. O baixo se sobressai nessa faixa nos apresentando um solo rico em vida e emoção. Destaco a bateria de Sanchez e as baquetadas contínuas nos pratos.

O álbum segue sem perder a beleza em momento algum. Um dos momentos mais marcantes encontra-se na incrível frase principal de piano, que em sua primeira aparição, introduz ao solo de baixo em ‘Horizontes Finale’.

Outra balada cheia de sentimento nos espera em “Within The House Of Night”, com sua introdução a piano solo e, após alguns segundos, entra o baixo repetindo a melodia do piano. Bateria suave… Sanchez larga a baquete e cria um ambiente único ao fundo.

Músicas muito bonitas, melódicas, arranjos incríveis e um magnífico contraste entre músicas aceleradas e baladas essenciais (como no final de “Whithin The House Of Night” e o começo de “The Point At Issue”. Um retorno a “pancadaria” sonora inicial). Poderia ouvi-lo durante horas e falar sobre ele, não por tanto tempo, mas por mais tempo e caracteres que disponho. Portanto, fica talvez como o melhor álbum de 2012 na categoria jazz, no mesmo patamar do excelente e muito interessante ‘The Continents: Concerto For Jazz Quintet e Chamber Orchestra’, mais recente trabalho de Chick Corea.

Sendo a nota ‘10’ a perfeição, dou um 9. Pondo-o, assim, na categoria dos melhores.

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