Mouse on the Keys – An anxious object

De vez em quando, ouço um álbum que tem um propósito claro na minha cabeça. Uma estória aqui, um conceito estético acolá. Bonito, interessante. Mas os que realmente me marcam de primeira são as trilhas sonoras. Algumas são escancaradamente realizadas com esse propósito; para algum jogo, filme ou programa de tv. Essas são, porém, menos importantes. As que me tocam de verdade são as incidentais. An anxious object da banda Mouse on the keys me faz o lembrar o porquê. O álbum, um verdadeiro companheiro para dias chuvosos, é na minha opinião uma obra prima dessas trilhas sonoras (ainda que ele mesmo não se veja assim).

Todos sabemos que, infelizmente, nós ainda temos que sair de casa pra resolver nossas pendências – trabalho, colégio, levar o cachorro pra passear – nos dias de chuva. Eu, particularmente, não me incomodo com um chuvisco aqui ou ali, e até simpatizo com uma chuva mais forte se eu estiver dentro do carro. E como todo momento tem sua trilha, o dia com alta pluviosidade não poderia ser diferente.

Uma mistura de jazz e post-rock, An anxious object é raro. É claramente pertencente à ambos os estilos sem se definir em nenhum. Aliando elementos compartilhados – a improvisação – e únicos – bateria imponente e instrumentos de sopro – pelos dois gêneros, a gravação consegue ser consistente e soar nova. Nesse sentido destaca-se também a falta de um vocal, quase um pilar dos dois gêneros. Justamente essa falta de vocais que dá o ar trilha-sonora ao disco. O sons, puros, acabam se mesclando com as suas ações e unem-se para formar essa sensação de música de fundo.

Pegando essa receita, o bolo não tinha como sair errado. An anxious object é breve – marca em torno dos 30 minutos de duração – mas deixa uma impressão que dura muito mais do que alguns álbuns duplos jamais sonhariam em deixar. As progressões no piano, o ponto da alto do disco, são sublimes e dão um toque de decadência. Diria inclusive que o álbum inteiro tem uma atmosfera noir. Não no sentido de crime policial ou nada do gênero, mas sim aquela mística de ruína requintada. Um bar com piano e pouca luz.

A música instrumental, porém, acaba deixando as suas interpretações mais difíceis. A percepção da mensagem do artista fica bem vaga e pode levar a uma incompreensão. Só que isso, com discos de qualidade dúbia. An anxious object consegue ser muito subjetivo e ainda assim claríssimo para o ouvinte. Mas é uma clareza pessoal em que não há duplicatas. E mesmo quando há – aparente – dificuldade na compreensão do disco, as sensações dele oriundas nunca são. Aliás, a música é dominada pelas sensações e opiniões assim como qualquer outra arte. Vale mais, para o ouvinte, o que foi absorvido e não o analisado.

An anxious object é de fácil entrada. Ainda que comparado a um disco pop seja relativamente profundo, dentro do jazz AAO é simples. Simples não de maneira simplória mas sim com forma coesa e enxuta. Alguém querendo algo de vanguarda, um free jazz moderno, não o vai encontrar aqui, até porque essa não é a proposta do trabalho. Ele não flerta com nenhum experimentalismo e isso não é demérito,  independente do que certas pessoas digam. O artista não tem de ser de vanguarda para ser bom.

Por isso mesmo recomendo AAO à todos que querem entrar no mundo do jazz. Também recomendo aqueles que já têm certa intimidade com o gênero e querem expandir seus conhecimentos. No fim das contas, recomendo para todos esse álbum muito bem tocado e produzido. Tem sim seus defeitos, mas nada que detraia da experiência final. Afinal, nem todo mundo precisa ser Coltrane pra fazer um bom jazz.

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