Arquivo mensal: julho 2012

Dave Brubeck Quartet – Time Out (1959)

Tentem imaginar o mundo ocidental sem o ano de 1959. Façam um esforço. Sem me alongar fazendo listagem de eventos cito somente um: Cuba. Voltando ao que aqui nos interessa, este talvez tenha sido o ano de maior importância para o Jazz ( quando comecei a me interessar por jazz e não sabia nomes, discos, fatos, orientava-me pelo ano. Baixei muitos discos somente pelo ano de lançamento: 1959). Nesse longínquo ano Miles Davis fez o “Kind of Blue”, Charles Mingus o “Ah Um” e “Dinasty” e, é claro, Dave Brubeck e seu quarteto marcam seu espaço na história do jazz e da música ocidental contemporânea.

“Time Out” é um disco excepcional. Lembro-me da primeira audição, foi algo incrível. Não ouvia jazz (ainda) com frequência e esse álbum me arrastou para um novo universo sonoro. Talvez já tivesse ouvido “Take Five”, afinal quem não? até quem não gosta de jazz reconhece a batida 5/4 bem marcado no piano que se repete durante toda a música. Impossível esquecer Paul Desmond e seus dois temas no saxofone. Um senhor solo de bateria que mantém perfeitamente o tempo sem em momento algum se perder.

Apesar de “Take Five” tocar, até hoje, incessantemente em filmes e afins, continua sendo uma grande música e, muito atual. Entretanto, a canção que mais atrai no disco é “Blue Rondo À La Turk”, uma grande demonstração do excepcional baterista Joe Morello (debilito grande parcela no experimentalismo de Time Out à Morello). Blue Rondo é uma mescla de jazz e clássico com batida tradicional turca.

Mais de cinquenta anos depois, sabemos que foi acertada a decisão de lançar esse álbum, porém Dave Brubeck sofreu resistência da crítica e da própria gravadora. Sua música utilizava tempos diferentes do comum ao jazz (4/4). A ideia para capa era uma pintura (incomum para época). Contudo o projeto seguiu e saiu. Apesar de romper com o tempo “oficial” do jazz (que é o mesmo para o blues e o rock), Brubeck em “Three To get Ready” utiliza ritmos “primos” ao jazz: waltz e foxtrot (famosos nos anos 20 e 30), passando do tempo ¾ para o 4/4. Essa música demonstra bem a sensibilidade do quarteto na utilização de ritmos e tempos não usuais.

Obra imprescindível para jazz e o estudo do ritmo no jazz, “Time Out” marcou a música da segunda metade do século XX e ajudou a delinear o caminho para o jazz do final dos anos 1950 e toda a década de 1960. Cool-jazz de primeira!

Ps: Havendo pretensão de obter fisicamente este álbum, indico a edição tripla (2 cds e dvd) de 50 anos. Ótima remasterização, encarte recheado e o disco dois contém apresentações de Brubeck e quarteto ao vivo em Newport nos anos de 1961, 63 e 64. O dvd tem um entrevista recente com Dave Brubeck contando a história do álbum. Vale a pena!

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Mouse on the Keys – An anxious object

De vez em quando, ouço um álbum que tem um propósito claro na minha cabeça. Uma estória aqui, um conceito estético acolá. Bonito, interessante. Mas os que realmente me marcam de primeira são as trilhas sonoras. Algumas são escancaradamente realizadas com esse propósito; para algum jogo, filme ou programa de tv. Essas são, porém, menos importantes. As que me tocam de verdade são as incidentais. An anxious object da banda Mouse on the keys me faz o lembrar o porquê. O álbum, um verdadeiro companheiro para dias chuvosos, é na minha opinião uma obra prima dessas trilhas sonoras (ainda que ele mesmo não se veja assim).

Todos sabemos que, infelizmente, nós ainda temos que sair de casa pra resolver nossas pendências – trabalho, colégio, levar o cachorro pra passear – nos dias de chuva. Eu, particularmente, não me incomodo com um chuvisco aqui ou ali, e até simpatizo com uma chuva mais forte se eu estiver dentro do carro. E como todo momento tem sua trilha, o dia com alta pluviosidade não poderia ser diferente.

Uma mistura de jazz e post-rock, An anxious object é raro. É claramente pertencente à ambos os estilos sem se definir em nenhum. Aliando elementos compartilhados – a improvisação – e únicos – bateria imponente e instrumentos de sopro – pelos dois gêneros, a gravação consegue ser consistente e soar nova. Nesse sentido destaca-se também a falta de um vocal, quase um pilar dos dois gêneros. Justamente essa falta de vocais que dá o ar trilha-sonora ao disco. O sons, puros, acabam se mesclando com as suas ações e unem-se para formar essa sensação de música de fundo.

Pegando essa receita, o bolo não tinha como sair errado. An anxious object é breve – marca em torno dos 30 minutos de duração – mas deixa uma impressão que dura muito mais do que alguns álbuns duplos jamais sonhariam em deixar. As progressões no piano, o ponto da alto do disco, são sublimes e dão um toque de decadência. Diria inclusive que o álbum inteiro tem uma atmosfera noir. Não no sentido de crime policial ou nada do gênero, mas sim aquela mística de ruína requintada. Um bar com piano e pouca luz.

A música instrumental, porém, acaba deixando as suas interpretações mais difíceis. A percepção da mensagem do artista fica bem vaga e pode levar a uma incompreensão. Só que isso, com discos de qualidade dúbia. An anxious object consegue ser muito subjetivo e ainda assim claríssimo para o ouvinte. Mas é uma clareza pessoal em que não há duplicatas. E mesmo quando há – aparente – dificuldade na compreensão do disco, as sensações dele oriundas nunca são. Aliás, a música é dominada pelas sensações e opiniões assim como qualquer outra arte. Vale mais, para o ouvinte, o que foi absorvido e não o analisado.

An anxious object é de fácil entrada. Ainda que comparado a um disco pop seja relativamente profundo, dentro do jazz AAO é simples. Simples não de maneira simplória mas sim com forma coesa e enxuta. Alguém querendo algo de vanguarda, um free jazz moderno, não o vai encontrar aqui, até porque essa não é a proposta do trabalho. Ele não flerta com nenhum experimentalismo e isso não é demérito,  independente do que certas pessoas digam. O artista não tem de ser de vanguarda para ser bom.

Por isso mesmo recomendo AAO à todos que querem entrar no mundo do jazz. Também recomendo aqueles que já têm certa intimidade com o gênero e querem expandir seus conhecimentos. No fim das contas, recomendo para todos esse álbum muito bem tocado e produzido. Tem sim seus defeitos, mas nada que detraia da experiência final. Afinal, nem todo mundo precisa ser Coltrane pra fazer um bom jazz.

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Kendrick Lamar – Section 80

Kendrick Lamar é novo no cenário e mesmo assim já tem muita tradição para honrar. Oriundo de Compton, terra de gigantes do hip-hop, Kendrick tem muito o que provar. Mas por mais que sua carreira ainda seja curta, o jovem rapper californiano já começou no caminho certo.

Na ativa desde 2009, o garoto começou a chamar atenção em 2010 depois de lançar sua quarta mixtape, Overly Dedicated. Foi mais ou menos nessa época que tomei conhecimento de Kendrick. Acabei deixando-o de lado e só resolvi ouvir algo quando Lamar “estourou” para um público maior.

Esse estouro aconteceu basicamente após o lançamento de seu primeiro full-length, Section 80. E é desse release que essa resenha trata. Lançado em 2011, Section 80 é ao mesmo tempo manifesto da sonoridade dos novos rappers (B.I.G Krit, Childish Gambino, J.Cole e seus colegas de grupo Black Hippy) tanto quanto é reminiscente de toda a história do rap West-Coast.

Aliando habilmente a estética “aterritorial” que vem marcando o rap mais recente – que no geral muito lembra o trabalho de Kanye West – com uma sonoridade claramente regional – trazendo a tona todo o “swag” da costa oeste, N.W.A sempre presente – Lamar faz algo que parece impossível.

As batidas pesadas, sampleando muito sons dos anos funk e do soul, caem como uma luva para o flow de Kendrick. Ainda que possa soar um pouco arrastado, o flow do rapaz cai como boa alternativa a tendência de muitos rappers de tentarem rimar o mais rápido possível. Isso não o impede, porém, de fazê-lo em uma das melhores faixas do álbum: Rigamortis.

Fazendo uma brincadeira lírica entre sua ascensão e capacidade de se destacar dentre os rappers com um imaginário envolvendo o post-mortem, e pasmem, de uma maneira bem humorada, Kendrick mostra  suas habilidades e características nessa música. Com alguns metais de sopro dando um ar alegre e com um crescendo vocal ao longo da música – que culmina com Lamar disparando mais palavras do que você consegue acompanhar, sem perder o ritmo – Rigamortis é provavelmente uma das melhores músicas do ano passado.

Mas não é só de uma música que se faz um álbum. Section 80 com vários pequenos destaques, ainda não que no nível de rigamortis, e não decepciona. Não acho que o desenvolvimento das músicas, em ordem, seja o melhor. Só que tampouco tenho dúvidas de que não passa de uma imaturidade na produção. O tempo há de consertar isso nos para os próximos álbuns de Lamar.

Tentando ser um pouco mias sucinto dessa vez: Kendrick fez um debut marcante e que vale a ouvida. Não é um álbum que vai marcar sua vida ou mudar suas percepções sobre a qualidade do Rap como um todo. Mas o flow jazzístico e as batidas em low-tempo com certeza são cativantes. O garoto com a voz parecida a de Eazy-E (pra mim ao menos) não decepciona mesmo os que esperam um algo a mais do som dele. Recomendado pra qualquer um que se interesse por hip-hop.

E só pra não passar em branco: Vale lembrar que o blog já tem uma página no facebroik em que nós postamos outras sugestões de música e qualquer outra coisa que consideremos pertinente. http://www.facebook.com/garagemsuburbana Além disso, seus comentários, ó poderoso leitor, são mais do que bem vindos. É isso.

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Lo-Fi – Nano (1998)


     Se você acredita que na atmosfera musical Islandesa só há Björk e, na última década, Sigur Rós. Você está enganado. Há um DJ chamado Thorhallus. Integrante único do Lo-Fi e dono do selo Thule.

Com alguns convidados e um ótimo vocal feminino (infelizmente não encontrei o nome da vocalista na internet), o Lo-Fi lançou somente um disco. Contudo é um disco altamente recomendado e, infelizmente, difícil de se encontrar.

Em seus quarenta e sete minutos (mais ou menos) de duração, “Nano” nos conquista com uma ótima fusão da música eletrônica com outros estilos. Um trip-hop bem ao estilo Portishead de ser. Definido muito bem por Fábio Massari como “Portishead submarino”(MASSARI, Fabio. Rumo à Estação Islândia.  São Paulo: Conrad, 2001, p. 209).

Por um lado o álbum tem seu ponto fraco na falta de linearidade; há tanta riqueza de influências e faixas diferentes que acaba pecando quando se fala em um disco linear. Por outro lado, a criatividade e uma ótima utilização de sons que lembram a música indiana e áraba na faixa “1000 year from now”, dão uma riqueza única ao disco.

Além da faixa acima citada, outro grande destaque é a música “Velvet”. Música composta por uma guitarra blues-rock com piatadas de jazz. Ótimo solo. Vibrante!

Em “Death of a nano”, Thor nos mostra um som recheado de sintetizadores, bem arraigado nos primórdios da música eletrônica. Voltamos à década de 1970 e suas experiências com sintetizadores e sons ambient.

O álbum (e a curta vida do Lo-Fi) encerra com a faixa “Remains”. Ótimo trip-hop com ambient.

Após o lançamento de “Nano”, a banda muda de nome. Se chamaria Nano. Mais uma vez minhas pesquisas não geraram frutos. Não pude, portanto, ouvir, nem conhecer a banda Nano.

Obs: Se algum leitor quiser acrescentar informações, sinta-se em casa.

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