Brian Eno – Another Green World

A capa já revela a impessoalidade que percorre todo o álbum.

Adoro coisas temáticas. É um pequeno vício meu e não podia deixar essa semana sem algo especial. Como a reunião Rio+20 está acontecendo na minha cidade, acho justo fazer um post que remeta ao que acontece por essas bandas. Munido de um trocadilho muito ruim, farei a resenha de Another Green World do mestre Brian Eno. Eno é um dos maiores e mais importantes músicos – ou não músico, como ele se proclama – de todo o século XX. Não só na música popular, mas sim nela como um todo. Moldando desde o rock, a música ambiente, eletrônica e até mesmo o pop, Eno já fez um pouco de tudo.

Ainda que possa ficar horas falando dos talentos como produtor, rockeiro ou pioneiro da música ambiente/eletrônica em separado, prefiro me contar no Brian Eno músico em Another Green World. AGW é, sem dúvidas, um trabalho de transição e isso é claro desde o início. Misturando sons sintéticos, orgânicos e guitarras, Eno consegue compor uma verdadeira paisagem musical.

Os sons eletrônicos, bem remanescentes de toda a aura que permeou o início da própria música eletrônica, são os mais constantes. Sintetizadores, bateria eletrônica, efeitos pinkfloydianos formam uma camada etérea que se estende por todo o álbum. Em in dark trees, por exemplo, toda essa composição se junta para formar um som quase assombrado. Não me assustaria ver essa música tocando assim em que pusesse os pés em uma nave espacial abandonada – eu já disse antes, adoro imaginar locais para ir com a música.

Isso tudo contribui para a grandiosidade do trabalho. O álbum cresce ao longo de sua extensão até envolver todo o espaço em sua volta. É grandioso, enorme mas não muito denso. Ninguém se sente sufocado ao ouvir as músicas de Eno. I’ll come running, e St Elmo Fire, por exemplo, chegam a ser animadas e, até certo ponto, felizes. Ainda assim, são músicas imponentes e etéreas.

Essa característica etérea do som pode até ser interpretada de maneiras ruins. Já ouvi dizerem, por exemplo, que Eno não tem compaixão. Que a música é quase apática e é difícil se relacionar mais a fundo. Não poderia discordar mais. Na já citada, I’ll come running, Eno dá um banho de inocência e simplicidade sonora sem perder um pingo da essência do seu art rock.

Another Green World é um trabalho de transição e deve ser julgado como um. Eno não buscou estabelecer nada de novo e se preocupou em experimentar dentro de seus limites. Só que isso não retira em nada a influência da obra sobre outros artistas. Predatando em alguns anos a new wave, Eno em 75 já formulou um trabalho rico em sintetizadores. E conseguiu ser melhor do que a maioria esmagadora desses artistas que viriam.

As misturas entre as guitarras tradicionais, a bateria eletrônica e a miríade de sons sintéticos formam uma experiência única. Quer seja com a presença ocasional dos vocais de Eno ou não, o álbum tem uma cara única. É fruto de um músico meticuloso, que domina as muitas áreas de atuação na sua arte. Pode se perceber a influência de Eno em cada pedaço desse trabalho, cada gota de suor meticuloso para que Another Green World seja o que é.

Arriscaria dizer que é inclusive extra-terrestre. Em vários momentos, como em Golden hours, o som de Eno se torna quase completamente sintético. Algo de fora, só que ainda assim humano. Pareceria uma trilha sonora para o século XXIII e eu gosto disso. É um trabalho completo e complexo, que conhece bem os seus limites.

Se trata então, de mais um trabalho ambicioso de um dos grandes artistas do nosso tempo. Acho que mesmo que não lhe interesse esse tipo de música, todos devem dar ao menos uma chance a Another Green World. Além de se tratar de um clássico, é um trabalho de primeira categoria. Juntando art-rock, rock progressivo, música eletrônica e predatando new  wave, Another Green World é um testamento musical.

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