Bon Iver – For Emma, Forever Ago

I am my mother’s only one
It’s enough 

Certos discos são melhor apreciados sem mais ninguém por perto. Outros, ganham uma nova dinâmica ao serem digeridos com uma compania. E por aí vai. For Emma, Forever Ago representa bem o primeiro caso. Feito por um homem só, isolado numa cabana da Carolina do Norte, esse é um disco para momentos de solidão e elaborado com isso em mente.

Justin Vernon passava por uma situação difícil. Tinha terminado um relacionamento e saído de sua antiga banda. E só pra piorar tinha contraído mononucleose. Decidido a tirar um tempo de tudo e de todos, pediu a seu pai as chaves da cabana da família. O interior da Carolina do Norte seria então o seu retiro físico e espiritual. De cama e alheio a tudo, Vernon pode nortear-se com mais clareza.

E foi nesse ambiente hostil que Vernon acabou por conceber seu primeiro álbum. For Emma, Forever Ago está mergulhado no turbilhão de sensações e emoções pelo qual Justin passava. Por isso, ainda que concorde que o artista deve a priori ser separado de sua obra, o caso de Bon Iver é um dos que a associação é necessária. Não podemos julgar, é claro, seu caráter pela obra, já que a arte é a reflexão mais interna do homem e não necessariamente reflete seu comportamento social. Mas isso fica pra outra conversa.

FEFA é um apelo de um homem ferido. Ferido de todas as maneiras e âmbitos possíveis. E é na adversidade ou acuado em que o homem mais produz. Munido de uma guitarra, bateria e alguns equipamentos “rudimentares” de gravação, Bon Iver conseguiu produzir um pequeno testemunho de sua situação a todos que se interessassem.

E é nesse apelo que o sofrimento não só de Bon Iver, mas também de Justin, se torna mais claro. Repetidas vezes durante o disco, Bon Iver canta suas dúvidas. Dúvidas de amor, sobre si mesmo e do porque de ter de passar pelo que passou. É um canto não de desespero, mas de amargura, de alguém que já aprendeu a conviver com a solidão.

There’s a black crow sitting across from me
His wiry legs are crossed
He is dangling my keys, he even fakes a toss
Whatever could it be
That has brought me to this loss?

 Daí surgem as mais marcantes características sonoras da obra: os vocais. Marcado, como os outros instrumentos, por várias camadas de overdubs, os vocais em For Emma, Forever Ago são, para mim, representações dos muitos Justins. Todos deprimidos, mas cada um por sua razão. Com um agudo bem particular e afinado, repetido em várias sobreposições, o som parece apologético e trêmulo, como uma noite de inverno marcando a fragilidade das cordas vocais.

Ainda que se trate de um disco com um claro protagonista, eu vejo em um outro participante certa proeminência. A cabana e o seu entorno são para mim um só. E uma coisa una que participa e influi claramente no ritmo da passagem do inverno, com mais ou menos rigidez. Essa cabana é o invólucro de Vernon, e é ali que ele se mantém, cura e aquece ao longo dos meses.

Justin hipster

Por isso então, da mesma maneira que as vozes representam o próprio Bon Iver, para mim os outros instrumentos são a cabana. As guitarras frágeis e sensíveis não chegam a ter um protagonismo, revezando-se entre um espaço secundário ou as vezes quase imperceptível. Não por conta de seu timbre mas sim pelo protagonismo exacerbado que os vocais tomam em certos momentos.

A bateria, por sua vez, aparece mais. Ainda que não seja uma tão constante, ela, inevitavelmente, acaba tomando um pouco de espaço sonoro por destoar tanto do tom dos outros instrumentos. É algo proposital e que funciona muito bem em certas situações. Mesmo assim tenho minhas resalvas quanto a sua pertinência.

Sobre o isolamento de Bon Iver, acho que é necessário fazer uma distinção. Não se trata do isolamento assombrado, que persegue e tortura a alma até que ela esteja corroída. Não é o isolamento imposto pelos outros, forçosamente incontornável e provavelmente uma das piores sensações de todas. É um isolamento auto-imposto, fruto de uma escolha e com hora marcada para acabar. Bon Iver está sozinho porque quer, e não porque lhe mandaram. E isso faz uma monstruosa diferença.

 I told you to be patient
I told you to be fine
I told you to be balanced
I told you to be kind
In the morning I’ll be with you
But it will be a different “kind”
I’ll be holding all the tickets
And you’ll be owning all the fines

 O álbum funciona bem como um todo. Apesar da produção simples, o trabalho foi bem amarrado e não se excede em momento algum. Não é válido, portanto, esperar de For Emma, Forever ago algo novo. A sua proposta e limites são bem claros. A mudança veio no self titled lançado alguns anos depois, e isso fica pra outra resenha.

E como sempre quero saber da opinião de ustedes, leitores, sobre o álbum e o post. Também queria deixar a página do blog no facebook, pra receber direto as atualizações daqui e algo a mais que ali postemos: http://www.facebook.com/garagemsuburbana

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2 pensamentos sobre “Bon Iver – For Emma, Forever Ago

  1. Gustavo disse:

    boa, daniboy meu primome passou esse disco ha um tempo mt legal

  2. Laise Mendes disse:

    sensacional

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