Constantina – Haveno

Bela capa por Bruno Nunes

Não é fácil caracterizar o som de Constantina. Até porque, uma banda que passa por diversos estilos numa só música não quer ser caracterizada. Por isso o máximo que consigo adiantar sobre eles é que Constantina é uma banda instrumental . Com exceção, que eu saiba, desse último ep, pacífico, que conta com participações especiais nos vocais para releitura de antigas músicas – algumas delas desse cd que resenho – mas só isso. Talvez possa adicionar também um caráter experimental a banda, mas isso vai se comprovar, ou não, conforme o desenrolar da resenha.

A banda dos rapazes de BH surgiu num bom momento pra música alternativa brasileira. Surgiu junto a muitas outras bandas experimentais que vem, aos poucos, renovando o cenário musical tupiniquim. Posso destacar algumas para referência, pois mesmo que não venham (necessariamente) a ganhar uma resenha no futuro merecem uma ouvida: Labirinto, Hurtmold, Eu serei a hiena, Guizado, ruido/mm são algumas de destaque.

Disse isso tudo para evitar falar a verdade que me dói. É injusto tentar definir um som para a banda. Por isso, na medida do possível, vou tentar mostrar as muitas influências que consigo captar no trabalho de Constantina e como isso influi em suas muitas camadas sonoras. Mas repito, essa é uma banda que deve, com certeza, ser escutada para ser descrita. Prefiro imaginar essa minha resenha como um acompanhamento para sua segunda audição, já que a primeira deve sempre ser despida de opiniões alheias.

 Imobilidade técnica, a primeira faixa do álbum, já abre os caminhos mostrando um pouco da maior característica da banda; a incrível capacidade de transformar o premeditado em algo que parece espontâneo, quase como um fruto de um encontro de amigos. Essa aura despretensiosa é, para mim, o charme da banda; o que a torna diferente de todas as outras muitas bandas genéricas de post-rock seja no Brasil ou fora dele.

Outra que influência que se faz marcar desde o início é a do Jazz. De um jazz suave, não tão forte quanto um bebop ou mesmo free jazz tradicional. Lembra muito vagamente uma música de elevador, de trem, de fundo e de mudança. Um personagem secundário que no fim das contas se mescla completamente com o ocorrido. E depois fica tão associado aquilo, mas tão associado que acaba se tornando sua principal lembrança ou sensação do momento.

Ao longo das músicas o leque de camadas sonoras vai se abrindo. A guitarra, por exemplo, sempre me leva a lembrar de uma banda que já resenhei por aqui, Toe. Ainda que provavelmente não seja proposital, ambas tem uma característica definidora: a repetição das harmonias. Dando um toque de sequencialidade e naturalidade aos movimentos dos outros instrumentos, a guitarra acaba por ceder seu lugar de protagonismo aos outros participantes dessa dança.

Mas nenhum desses é para mim a coisa mais interessante na banda. O que rouba a cena, involuntariamente, é a presença forte de elementos da música eletrônica. Constantina consegue unir uma proposta muito orgânica e livre de som à uma estética da música eletrônica que muitas vezes soa dominante e severa em combinação com outros estilos. Mas Constantina não é uma banda qualquer.

Outra arte do álbum

Um dos motivos para tal anomalia é a suavidade e o timbre dos instrumentos. A banda pouquíssimas vezes toca em algum tom que seja considerado alto ou até mesmo grave. É uma banda leve, de som, peso e espírito. O uso de alguns instrumentos considerados de raíz – violão, trompete – com sintetizadores relativamente comportados cria uma atmosfera de tradição revisitada.

E é isso que acontece no ponto alto do disco, a faixa Bagagem Extra. Unindo harmoniosamente cada um desses quesitos, a faixa parece ser uma síntese do som muitas vezes incongruente da banda. Um incongruente bom, gostoso de se ouvir, mas ainda incongruente. Uma espécie de música regional moderna, só que sem muito apelo popular, uma música de fundo para a vida na cidade grande.

Esse é, porém, um daqueles cds pra ser ouvido na integra. Você não vai se animar em ouvir apenas uma música ou duas. A experiência é muito mais gratificante e recompensadora ao ouvir-se o álbum de cabo a rabo. Recomendo então guardar uma horinha do seu fim de tarde, por o seu som e simplesmente deixar-se levar ao haveno sonoro – porto, em esperanto –  da banda Constantina.

Gostaria de aproveitar o finzinho do post para um recado relativamente sério. A banda, Constantina, libera seus trabalhos para download e stream gratuitos no seu site: http://www.constantina.art.br/Só que isso não quer dizer que não valha a pena adquirir o material dos caras, até como maneira de incentivo. Vale também destacar a arte da capa e do trabalho de divulgação, feita pelo próprio guitarrista da banda, Bruno Nunes, que é de primeiríssima qualidade.

Só estou reforçando isso tudo porque é sempre bom dar um crédito ao trabalho nacional, em especial quando se trata de uma banda que já alcançou a maturidade musical e que só tem a contribuir com o cenário da música brasileira. E aproveito também para pedir comentários, faz parte.

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