Arquivo mensal: junho 2012

Mixtape nº3 (26/05 ~ 27/06)

Chega o fim do mês, e como já é de costume, a mixtape do blog. Pra quem ainda não conhece, todo mês é postado uma mixtape (uma seleção de músicas) com uma música de cada um dos álbuns comentados durante o mês. O período contemplado nessa seleção é do dia 26/05 até 27/06

A escolha é feita pelo autor de cada resenha e é disponibilizada tanto para download, quanto para ouvir no Grooveshark.

Segue a lista de todas as músicas dessa edição:

Serge Gainsbourg – Ballade de Melody Nelson

The Shivers – Beauty

Neu! – Hallogallo

Brian Eno – I’ll Come Running

Tame Impala – It is Not Meant to Be

Iggy Pop – Lust for Life

Black Flag – Nervous Breakdown

Constantina – Pequenas Embarcações

The Antlers – Putting the Dog to Sleep

Bon Iver – Skinny Love

Nine Inch Nails – Suck

Teenage Fanclub – The Concept

Wild Beasts – The Empty Nest

Misophone – White Waves

Download: http://www.mediafire.com/?mdaqowltq46hk07

Grooveshark: http://grooveshark.com/#!/playlist/Mixtape+3/74954921

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Primeira edição do Podcast da Garagem Suburbana

E aqui está a novidade prometida já há alguns dias. O podcast da Garagem Suburbana. A gente teve essa ideia uns tempos atrás em uma conversa no Skype e decidimos que seria interessante pra além de ter mais um contato com os leitores (vocês ouvirem nossas vozes), o podcast seria uma discussão descontraída sobre assuntos que as vezes pensamos em postar no blog, ou então que não tem um espaço para destaque aqui.

Nesse primeiro episódio, o piloto, a gente comentou sobre Brian Eno, Sonic Youth e Yoko Ono, Ratos de Porão, Sigur Rós, hipsters e metaleiros. Essa foi a primeira vez que tentamos algo do tipo então sofremos muito com todo o processo de produção, portanto algumas coisas podem ter faltado ou ficado meio ruins, mas digo isso em nome de todos do blog que fizemos tudo de “coração”.

Confira então o podcast aqui:

E aqui o link para download: http://www.mediafire.com/?6mek0fblzul9skn

Essa é a lista das músicas utilizadas como background e estão organizadas na ordem de aparecimento.

Morphine – Honey White; Brian Eno – Sky Saw; Neu! – Hallogallo; Sonic Youth – Superstar; Sigur Rós – Gobbledigook; Sigur Rós – Fjögur píanó; Black Sabbath – Into the Void; Sepultura – Arise; Mastodon – Black Tongue; Slayer – Angel of Death; Ratos de Porão – Sofrer

Comentem e curtam a nossa página no Facebook (estamos aceitando sugestões de assuntos e temas para discutir): http://www.facebook.com/garagemsuburbana

Ainda não temos uma data definida de quando o podcast será postado, mas inicialmente esperarmos fazer uma edição por mês. Então não percam!

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Brian Eno – Another Green World

A capa já revela a impessoalidade que percorre todo o álbum.

Adoro coisas temáticas. É um pequeno vício meu e não podia deixar essa semana sem algo especial. Como a reunião Rio+20 está acontecendo na minha cidade, acho justo fazer um post que remeta ao que acontece por essas bandas. Munido de um trocadilho muito ruim, farei a resenha de Another Green World do mestre Brian Eno. Eno é um dos maiores e mais importantes músicos – ou não músico, como ele se proclama – de todo o século XX. Não só na música popular, mas sim nela como um todo. Moldando desde o rock, a música ambiente, eletrônica e até mesmo o pop, Eno já fez um pouco de tudo.

Ainda que possa ficar horas falando dos talentos como produtor, rockeiro ou pioneiro da música ambiente/eletrônica em separado, prefiro me contar no Brian Eno músico em Another Green World. AGW é, sem dúvidas, um trabalho de transição e isso é claro desde o início. Misturando sons sintéticos, orgânicos e guitarras, Eno consegue compor uma verdadeira paisagem musical.

Os sons eletrônicos, bem remanescentes de toda a aura que permeou o início da própria música eletrônica, são os mais constantes. Sintetizadores, bateria eletrônica, efeitos pinkfloydianos formam uma camada etérea que se estende por todo o álbum. Em in dark trees, por exemplo, toda essa composição se junta para formar um som quase assombrado. Não me assustaria ver essa música tocando assim em que pusesse os pés em uma nave espacial abandonada – eu já disse antes, adoro imaginar locais para ir com a música.

Isso tudo contribui para a grandiosidade do trabalho. O álbum cresce ao longo de sua extensão até envolver todo o espaço em sua volta. É grandioso, enorme mas não muito denso. Ninguém se sente sufocado ao ouvir as músicas de Eno. I’ll come running, e St Elmo Fire, por exemplo, chegam a ser animadas e, até certo ponto, felizes. Ainda assim, são músicas imponentes e etéreas.

Essa característica etérea do som pode até ser interpretada de maneiras ruins. Já ouvi dizerem, por exemplo, que Eno não tem compaixão. Que a música é quase apática e é difícil se relacionar mais a fundo. Não poderia discordar mais. Na já citada, I’ll come running, Eno dá um banho de inocência e simplicidade sonora sem perder um pingo da essência do seu art rock.

Another Green World é um trabalho de transição e deve ser julgado como um. Eno não buscou estabelecer nada de novo e se preocupou em experimentar dentro de seus limites. Só que isso não retira em nada a influência da obra sobre outros artistas. Predatando em alguns anos a new wave, Eno em 75 já formulou um trabalho rico em sintetizadores. E conseguiu ser melhor do que a maioria esmagadora desses artistas que viriam.

As misturas entre as guitarras tradicionais, a bateria eletrônica e a miríade de sons sintéticos formam uma experiência única. Quer seja com a presença ocasional dos vocais de Eno ou não, o álbum tem uma cara única. É fruto de um músico meticuloso, que domina as muitas áreas de atuação na sua arte. Pode se perceber a influência de Eno em cada pedaço desse trabalho, cada gota de suor meticuloso para que Another Green World seja o que é.

Arriscaria dizer que é inclusive extra-terrestre. Em vários momentos, como em Golden hours, o som de Eno se torna quase completamente sintético. Algo de fora, só que ainda assim humano. Pareceria uma trilha sonora para o século XXIII e eu gosto disso. É um trabalho completo e complexo, que conhece bem os seus limites.

Se trata então, de mais um trabalho ambicioso de um dos grandes artistas do nosso tempo. Acho que mesmo que não lhe interesse esse tipo de música, todos devem dar ao menos uma chance a Another Green World. Além de se tratar de um clássico, é um trabalho de primeira categoria. Juntando art-rock, rock progressivo, música eletrônica e predatando new  wave, Another Green World é um testamento musical.

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Neu! – Neu! (1972)

Mil novecentos e setenta e um, Alemanha Ocidental. Por toda o país aparecem bandas inovadores, com novas perspectivas sobre como fazer música. Esse era o espírito do Krautrock.

Nessa nova perspectiva aparece o Kraftwerk que cunhou o termo “Musik Arbeit” para descrever a maneira como faziam sua música. Nesse ambiente criativo e inovador do Kraftwer nasce o Neu!. Formado pelos ex-integrantes Klaus Dinger(bateria) e Michael Rother (guitarra).

Com novas concepções que divergiam das do Kraftwerk, Dinger e Rother entram em estúdio, no final de 1971, juntamente com o lendário produtor Conny Plank para a gravação do primeiro Long-play: Neu! – Neu!, lançado no ano seguinte (Plank produziu grande parte das bandas alemãs do começo dos anos 1970. Entre elas o Jane, Eloy, Cluster, Grobschnitt, Guru Guru e a lista não para aí. Nos anos 80 produziu os primeiros discos da banda britânica de synthpop Ultravox. Plank também produziu o primeiro álbum do Kraftwerk). E é desse Lp que escrevo.

Quem leu minha resenha anterior(quem ainda não desfrutou desse prazer, por favor…) quando ler essas próximas frases perceberá meu gosto pela arte dos discos. As capas exercem em mim um enorme poder e, nesse caso não podia ser diferente. A capa do disco sobre o qual escrevo nesse momento é de uma simplicidade, ela é límpida. Há uma grande influência do Popart e Andy Warhol na capa idealizada por Klaus Dinger. Não há mais a dizer, somente o que a capa dizia: Neu! (“novo” em português).

Melodias simplistas, poucos acordes e bateria ‘Motorik’. Esses são os ingredientes principais presentes no primeiro álbum do Neu!. Ouça você mesmo a faixa de abertura, “Hallogallo” e preste atenção na bateria mecânica e repetitiva, bem marcado no compasso 4/4. A guitarra com wah-wah ecoa. Em determinados momentos são camadas de guitarras cheias de efeitos que nos fazem viajar e, a base continuar em sua marcha motorizada em direção à próxima faixa: “Sonderangebot”. Música com uma essência totalmente experimental. Há um riqueza de detalhes sonoros e experimentalismo que em seu começo lembra a correnteza e, em seu final, o som de metal torcido dá um tom de abertura a música seguinte.De maneira arrastada, “Weissensee” (ou “mar branco” em bom português) realmente faz lembrar o som das águas. Som muito bem traduzido pela melodia das guitarras. Todo o trabalho em torno desse disco remete de alguma forma as águas. Seja pelo nome das faixas ou até mesmo pela introdução do lado ‘B’ do disco, com a ótima “In Glück”, que começa com  um som muito similar ao som de água corrente. E continua de maneira pacata e suave, com arranjos que em certos momentos dão a impressão de estarmos em uma floresta, perto de um rio. E nessa transição de “In Glück” para “Negativland” (algo como “terra negativa”) pode se notar um contraste entre a calma da natureza e o barulho da cidade que “Negativland” traz, com sua britadeira e caos. Tire suas próprias conclusões ouvindo-as, porém, atente-se para o nome das músicas. A frase marcante da guitarra continua. Volta a cena em “Negativland” a bateria característica. Sons que parecem carros em alta velocidade são percebidos ao final da faixa que é a mais conturbada do disco. De repente silêncio!

Ouve-se alguns acordes minimalistas e esparsos… Uma voz sussurrada e desafinada começa a cantar. Sinceramente não consigo definir em qual idioma está cantada, nem quais palavras são ditas. Mas pelo título “Lieber Honig” (numa tradução livre “querida amada”), creio está em alemão. Contudo, essa faixa parece ser uma cantiga infantil tocada e cantanda por uma criança.

“Lieber Honig” termina com umas mistura de sons que podem remeter a quase tudo que passa anteriormente pelo disco. E assim se encerra o álbum. Uma obra primordial para uma época da história da música, não se restringindo somente a música. Clássico do Krautrock e do Rock em geral.

Ps. 1: Neu!- Neu! é um excelente disco para se ouvir em um transporte marítimo, barcas por exemplo. Ou mesmo em um dia chuvoso.

Ps.2:  Infelizmente o Neu! durou pouco. Após o primeiro álbum, veio Neu! 2 de 1973 e em 1975 lançaram o que seria o último registro de estúdio por anos: Neu! 75. Nesse meio tempo, Rother se juntou com o Cluster e lançaram dois discos sobre o nome de Harmonia (Musik Von Harmonia, de 1974 e, Deluxe, de 1976). Entretanto, a influência exercida pela dupla foi gigantesca. Ouça os dois álbuns de 1977 do David Bowie: Heroes e Low. Inclusive Bowie queria que músicos alemães gravassem Heroes, e entre eles estaria Rother, mas não foi possível esse encontro. Além de Bowie, Brian Eno, o pai da música ambiente, esteve muito atento à musicalidade alemã. Gravou discos com o Cluster e teve grande participação nos discos citados acima de David Bowie. As influências do Neu! não se restringem à esses dois músicos britânicos, seu “Motorik” influenciou os ex-companheiros de Kraftwerk. Em Autobahn, disco de 1974 do Kraft ouvimos os sons que remetem a carros correndo em autoestradas, bem no estilo Motorik.

Após Neu!75, Dinger formou o La Dusseldorf.  Com uma visão mais pop, foi fundamental para o som dos anos 80. Já Rother, seguiu carreira solo, lançando em 1976 seu primeiro disco: Flammende Herzen. Ótimo disco, diga-se de passagem. Guitarras hamoniosas, melodias suaves e lindas. Contudo, ainda houve tempo para mais uma reunião. Em 1986, sai Neu! 86. Esse sim, infelizmente, o último registro de estúdio da dupla.

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Bon Iver – For Emma, Forever Ago

I am my mother’s only one
It’s enough 

Certos discos são melhor apreciados sem mais ninguém por perto. Outros, ganham uma nova dinâmica ao serem digeridos com uma compania. E por aí vai. For Emma, Forever Ago representa bem o primeiro caso. Feito por um homem só, isolado numa cabana da Carolina do Norte, esse é um disco para momentos de solidão e elaborado com isso em mente.

Justin Vernon passava por uma situação difícil. Tinha terminado um relacionamento e saído de sua antiga banda. E só pra piorar tinha contraído mononucleose. Decidido a tirar um tempo de tudo e de todos, pediu a seu pai as chaves da cabana da família. O interior da Carolina do Norte seria então o seu retiro físico e espiritual. De cama e alheio a tudo, Vernon pode nortear-se com mais clareza.

E foi nesse ambiente hostil que Vernon acabou por conceber seu primeiro álbum. For Emma, Forever Ago está mergulhado no turbilhão de sensações e emoções pelo qual Justin passava. Por isso, ainda que concorde que o artista deve a priori ser separado de sua obra, o caso de Bon Iver é um dos que a associação é necessária. Não podemos julgar, é claro, seu caráter pela obra, já que a arte é a reflexão mais interna do homem e não necessariamente reflete seu comportamento social. Mas isso fica pra outra conversa.

FEFA é um apelo de um homem ferido. Ferido de todas as maneiras e âmbitos possíveis. E é na adversidade ou acuado em que o homem mais produz. Munido de uma guitarra, bateria e alguns equipamentos “rudimentares” de gravação, Bon Iver conseguiu produzir um pequeno testemunho de sua situação a todos que se interessassem.

E é nesse apelo que o sofrimento não só de Bon Iver, mas também de Justin, se torna mais claro. Repetidas vezes durante o disco, Bon Iver canta suas dúvidas. Dúvidas de amor, sobre si mesmo e do porque de ter de passar pelo que passou. É um canto não de desespero, mas de amargura, de alguém que já aprendeu a conviver com a solidão.

There’s a black crow sitting across from me
His wiry legs are crossed
He is dangling my keys, he even fakes a toss
Whatever could it be
That has brought me to this loss?

 Daí surgem as mais marcantes características sonoras da obra: os vocais. Marcado, como os outros instrumentos, por várias camadas de overdubs, os vocais em For Emma, Forever Ago são, para mim, representações dos muitos Justins. Todos deprimidos, mas cada um por sua razão. Com um agudo bem particular e afinado, repetido em várias sobreposições, o som parece apologético e trêmulo, como uma noite de inverno marcando a fragilidade das cordas vocais.

Ainda que se trate de um disco com um claro protagonista, eu vejo em um outro participante certa proeminência. A cabana e o seu entorno são para mim um só. E uma coisa una que participa e influi claramente no ritmo da passagem do inverno, com mais ou menos rigidez. Essa cabana é o invólucro de Vernon, e é ali que ele se mantém, cura e aquece ao longo dos meses.

Justin hipster

Por isso então, da mesma maneira que as vozes representam o próprio Bon Iver, para mim os outros instrumentos são a cabana. As guitarras frágeis e sensíveis não chegam a ter um protagonismo, revezando-se entre um espaço secundário ou as vezes quase imperceptível. Não por conta de seu timbre mas sim pelo protagonismo exacerbado que os vocais tomam em certos momentos.

A bateria, por sua vez, aparece mais. Ainda que não seja uma tão constante, ela, inevitavelmente, acaba tomando um pouco de espaço sonoro por destoar tanto do tom dos outros instrumentos. É algo proposital e que funciona muito bem em certas situações. Mesmo assim tenho minhas resalvas quanto a sua pertinência.

Sobre o isolamento de Bon Iver, acho que é necessário fazer uma distinção. Não se trata do isolamento assombrado, que persegue e tortura a alma até que ela esteja corroída. Não é o isolamento imposto pelos outros, forçosamente incontornável e provavelmente uma das piores sensações de todas. É um isolamento auto-imposto, fruto de uma escolha e com hora marcada para acabar. Bon Iver está sozinho porque quer, e não porque lhe mandaram. E isso faz uma monstruosa diferença.

 I told you to be patient
I told you to be fine
I told you to be balanced
I told you to be kind
In the morning I’ll be with you
But it will be a different “kind”
I’ll be holding all the tickets
And you’ll be owning all the fines

 O álbum funciona bem como um todo. Apesar da produção simples, o trabalho foi bem amarrado e não se excede em momento algum. Não é válido, portanto, esperar de For Emma, Forever ago algo novo. A sua proposta e limites são bem claros. A mudança veio no self titled lançado alguns anos depois, e isso fica pra outra resenha.

E como sempre quero saber da opinião de ustedes, leitores, sobre o álbum e o post. Também queria deixar a página do blog no facebook, pra receber direto as atualizações daqui e algo a mais que ali postemos: http://www.facebook.com/garagemsuburbana

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