Beirut – The Flying Club Cup

Riviera francesa, primavera. Sentado em outro dos incontáveis bares prostrados a beira-mar você descansa. Já passa de meio dia e o mormaço, que há poucas horas imperava, já cede lugar a uma brisa que corre sem pressa do mar. Além de frescor traz também um pouco de sal, mas já era de se esperar. Tudo conspira para que você não se levante dessa estranha cadeira de madeira. Rústica; provavelmente já desgastada por muitos verões. Uma xícara de chá, uma bela vista e alguns aperitivos. É bom estar sozinho.

Sob a sombra das nuvens, que já engolem o sol, você vê. Pálida e imóvel – ainda bem – uma estante. Também de madeira, mas não do mesmo tipo da cadeira. Afinal de contas, não é todo mundo que pode comprar um jogo de móveis. Dentre as muitas quinquilharias alis expostas uma se destaca. Embalagem de plástico suja, confere; forma retangular, desgastada nas pontas, confere; estrategicamente posto numa angulação de 80º – ou algo assim, matemática nunca foi seu forte – para que não empene, confere. É, tudo leva a crer que se trata outro vinil largado por ai.

não foi tirada por mim ( infelizmente)

Movido por compaixão, ou pela simples vontade de vencer a inércia, você vai até a inconspícua estante para tentar descobrir a origem desse artefato musical. Quem sabe, o motivo de seu paradeiro. Quem sabe. Pega a embalagem com cuidado; não se sabe, por hora, da idade da bolacha. Beirut. Hm, parece familiar. Mais um daqueles pop-indie-folk-rock? Provavelmente. Não. É. Com certeza. Espera. 5 euros? Desde quando bares vendem vinis?*

As férias estão acabando, não custaria nada (5 euros mais impostos, na verdade) levar mais uma lembrança pra casa. Talvez  ajude a lembrar desse bar já que ele não faz muito por si mesmo nesse quesito. Fila; caixa; duas xícaras de chá (uma sem terminar, droga); um baguette e três fatias de queijo; um vinil, é, esse aqui, estava na estante. Tchau, au revoir, ah ele que se vire pra entender.

Uma semana depois, sua humilde (ou nem tanto, quem vai passar férias na Riviera francesa não pode estar tão mal) residência. Já fazem alguns dias desde que voltou. Hora de abrir o resto das malas. Souvenir da Torre Eiffel – piegas, hein? – Sweater – vai pro armário, o inverno ainda tarda – Porta copos do Van Gogh – um pouco de cultura para a sala de estar – e. E? O que é isso mesmo? Ah, aquele vinil. Já que comprou, vai ouvir, não é?

Levanta. O cansaço é evidente; o trabalho não é complacente. Mal volta de férias e a chibata invisível já se faz presente. Abre a tampa. Confere, limpa. Encarte sobre a mesa, irrelevante. Bolacha levemente gasta, não danificada. Agulha. Chiados, sempre eles. A calma antes da tempestade?

Well it’s been a long time, long time now
since I’ve seen you smile
and I’ll gamble away my fright
and I’ll gamble away my time
and in a year, a year or so
this will slip into the sea
well it’s been a long time, long time now
since I’ve seen you smile

 

Beirut não é libanesa. Tampouco francesa. Nem oriunda dos bálcãs. Só que americana não faz jus ao seu som. Talvez Nova Iorquina seja um pouco mais condizente. Um pouco de tudo, e muito de nada. Formada em 2006 na cidade que nunca dorme, Beirut é relativamente nova. Ainda assim já teve tempo suficiente para fazer seu próprio nome na extensa – e com frequência efêmera – cena indie.

The Flying Club Cup é o segundo cd da banda. Só que seu “primeiro” sendo realmente uma banda. O debut, Gulag Okerstar foi gravado quase que exclusivamente por Zach Condon, motivado por nada mais do que uma recente paixão por música balcânica e uma boa dose de talento. Ainda que tenha se transformado, a influência do leste europeu é ainda muito sentida nesse segundo cd, constantemente presente no uso de instrumentos tradicionalmente associados a região, como o acordeon. Mas também cedeu espaço a outras influências, como um pouco mais de música “tradicional” francesa.

Beirut porém, não procura se manter em um gênero. E muito menos criar algo novo. Sua busca é outra. É uma busca antiga, quase indissociável a própria música. Busca essa que provavelmente nunca vai ser finalizada e que o próprio Beirut não chega nem perto de concluir. É uma busca pela transcendência. Um olhar ritmado no fundo da alma do homem. Seja a roda tribal mais remota ou a mais bela variação de Bach, toda buscam o mesmo. Uma fuga espiritual.

 Bandolins, ukeleles, violinos, acordeões, trompete, órgãos; a lista prossegue. Todos pequenos e grandes recursos voltados ao mesmo objetivo, a construção de uma mesma camada. Uma paisagem musical, como gosto de pensar. Eu, particularmente, tenho a tendência de associar toda música a uma paisagem específica, uma visão que não dura mais do que uma fração de segundo, uma espécie fotografia forjada em minha mente.

Vejo como um pequeno exercício de memória (ainda que nunca tenha vivido-as).Paisagens se sobrepõem, desde minha caminhada até o colégio durante as manhãs até um anoitecer no meio de um monastério tibetano que provavelmente nunca conhecerei. O que importa, afinal, é a sensação. Sensação de se elevar, sintonizar-se e pôr se em um com o que escutas. Esquecer o que há a sua volta ou aguçar o que já nos cerca, o que vale é estar.

nem essa

Beirut, por exemplo, sempre me traz uma mesma imagem, indefinida como o próprio som da banda, maleável no andamento de suas canções. O vocal suave, que parece destoar de todo o resto me conduz a uma pequena doca, num porto vazio. Os violinos formam em uníssono uma corrente de nuvens, não brancas, mas de um cinza mensageiro de um profundo mal agouro para os que do mar dependem. Mar esse, que assim como o acordeon que faz-se presente até quando não está sendo tocado – a lembrança é uma ferramenta potente – vai e volta seguindo seu próprio ritmo, marcando uma dança que só ele acompanha.

Essa pequena paisagem, incompleta com toda certeza, me faz parar para pensar outra vez. Beirut é uma banda para marinheiros. É uma banda que embala as idas e vindas da vida portuária. Não há pressa para nada. A calmaria é que dita os trabalhos. Tem-se mais prazer no observar, no deixar-se conduzir do que no carregar. O mar nos ajuda, apesar de tudo.

Ajuda e castiga. O som da banda reflete isso a todo instante. Nos lembra, sonoramente, da espera. Espera pelo castigo inevitável do mar, imponente perante nossa mortalidade. Ele ali esteve, ali estará e não há nada que possamos fazer. Ora melancólico e ora alegre, muito mais  passional do que as estações. Uma divindade por si só, onipotente e onipresente O homem não é feito de terra, mas sim de mar.

Então, quando estiver cansado espiritualmente, necessitado de um conforto inescrutável e livre de pretensões, ouça Beirut. Talvez o som das docas, dos marinheiros tão acostumados a inquietude do mar e imprevisibilidade que ele traz, traga um alento para alguém mais necessitado. Afinal, ninguém melhor do que o mais angustiado para mostrar o quão importante pode ser a paz de espírito.

 *NA: Desde quando adolescentes podem escrever contos de qualidade duvidosa.

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