Parteum – A Autoridade da Razão

PARTEUM DO TEXTO (rs)

O rap é arte – sim, e quero ver me provarem do contrário – e está em constante evolução. Desde os seus primórdios nos conturbados anos 80 nova iorquinos até a sua “recente” consolidação no mainstream, não foram poucas as inovações – e repetições – sofridas pelo gênero. E como toda coisa multifacetada, certas faces acabaram recebendo mais exposição do que outras.

No Brasil em especial, o rap – que é muito bem representado – se viu limitado midiaticamente exclusivamente como um meio de protesto das camadas menos abastadas. E ainda que o rap por nossas bandas seja realmente mais focado nesse “projeto”, limitá-lo a isso é uma grande injustiça. E Parteum é a prova viva de que essa exclusão arbitrária só traz malefícios.

“Decifre-me por meio dessas linhas, imaginárias linhas
 nos separaram feito prófase, metáfase, anáfase e telófase” 


Parteum é um artista – no que tange o meu conhecimento – singular no cenário musical brasileiro. Migrando da abordagem tradicional dos problemas sociais comuns aos seus colegas, Parteum junta o que parece antagônico. Da realidade concreta ao ideal introspectivo. Como diz Borges “El anverso y el reverso de esta moneda son, para Díos, lo mismo”.

O QUE REALMENTE INTERESSA, O SOM:

No seu mais recente trabalho, a Autoridade da Razão, traça uma pequena colcha de retalhos composta de reflexões internas e externas que compõe o próprio Parteum. Uma mistura dura e ao mesmo tempo sensível, capaz de desdobrar o que é sentido por pequenas parábolas ou metáforas.

Mistura essa fruto da combinação de elementos culturais tradicionalmente distintos, composto de referências a cultura pop, as ciências pautada na realidade mais crua e social do rap. Para resolver isso só ” Obi-Wan Kenobi cabloco passando por cima do sufoco”, fazendo grandes e pequenas pontes entre diferentes esferas do sentir.

Para Parteum, a arte seria a junção, a ponte mor, que uniria as pessoas e, por consequência, resolveria muitas das fricções existentes. Afinal se “Deus é todo mundo sorrindo junto” nada mais justo do que dar a arte a chance de estampar esse sorriso.

Batidas etéreas, com muita presença de sintetizadores, são, para mim, a marca do cd. Elas, unidas, ajudam a formar uma atmosfera transitória, como uma espécie de limbo sensorial, ao mesmo tempo aberto e absorto as palavras da primeira parte. Ainda que soem muitas vezes similares, eu tendo a crer que tal marasmo – monótono para alguns – é parte do panorama estético que o artista tenta criar. Seria uma tentativa de assentar o cenário para a proposta do trabalho, para que as rimas possam ser distribuíveis em um ambiente amigável.

“Existe mais com grau ou dimensão… 
Descendo da ilusão transformo magica em desejo…
Nem tudo que vejo inspira poesia e ritmo…
O resultado em intimo potente feito dor de parto em
divas…”

E essa mesma proposta se estende para o tornar bem diferentes dos seus colegas.  Suas músicas não tratam apenas de um espaço definido no tempo – uma ação ou dia – mas sim de um universo maior de sensações, possibilidades e entraves. Não é limitado as ideias, mas tampouco limitado ao concreto, é uma colagem temática.

Essa preferência faz com que alguns chamassem o rap de Parteum de abstrato. Excluindo o meu desgosto já prévio da palavra – que será explicitado em outra ocasião mais oportuna – também discordo quanto à abstratividade mais usual no trabalho. Ele não fala sobre algo alheio a sua realidade. Pelo contrário, tudo o que lhe é procurado é justamente sua realidade. A diferença do estilo de Parteum para os outros rappers é como ele expõe isso. Sua percepção é diferença, mais hábil e capaz de juntar suas muitas sensações e compreende-las.

CONCLUSÕES RELATIVAMENTE PRECIPITADAS

O “lirismo inexato” de Parteum é justamente parte de seu charme. Não é à toa que é mal compreendido no cenário do rap nacional. Não é todo dia que alguém se departe da visão mais “vida das ruas” para algo mais introspectivo. Com tudo isso, há de se dizer que o trabalho poderia ser mais constante. Com alguns momentos altos e outros mais baixos, ainda acho que é uma obra necessária para qualquer um que goste de rap. Afinal, não é todo homem que consegue se desprender da sua visão original, como bem mostra Ortega:

“O homem de mente clara é o que se liberta dessas ‘idéias’ fantasmagóricas e olha de frente para a vida, e se conscientiza de que tudo nela é problemático, e sente-se perdido. Como isso é a verdade pura – ou seja, que viver é sentir-se perdido -, aquele que o aceita já começou a se encontrar, já começou a descobrir sua realidade autêntica, já está em terra firme. Instintivamente, como o náufrago, buscará algo a que se agarrar, e esse olhar trágico, peremptório, absolutamente verdadeiro porque se trata da salvação, o fará ordenar o caos de sua vida. Essas são as únicas idéias verdadeiras: as idéias dos náufragos. O resto é retórico, postura, farsa íntima. Quem não se sente verdadeiramente perdido perde-se inexoravelmente; isto é, não se encontra jamais, não se encontra nunca com a própria realidade.”

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