Toe – Book About My Idle Plot on Vague Anxiety

Japão. Terra do sol nascente, miojo, samurais, mangás e post-rock. Pera aí, post-rock? O mesmo Japão que tem mania de exportar tendências de gosto duvidoso (é você mesmo Visual kei)? O próprio. Mas veja bem, temos que lembrar que o próprio post-rock é uma tendência “nova”  e não é também exatamente um gênero musical que frequente a lista dos mais vendidos. Ainda assim, o Japão vem sendo nos últimos anos um dos mercados mais voláteis e interessantes no mundo, com bandas como Bluebeard, Mouse on the keys, Lite, e, é claro, Toe.

Toe. O nome da banda pode até enganar os desavisados, mas não julguemos o livro (ou banda) pela capa (ou nome). Toe não é uma banda americanizada. O próprio post-rock não é um gênero americano, só que tampouco japonês e sim comum a muitas cenas (o nosso próprio Brasil tendo uma cena bem interessante com bandas como Constantina, Labirinto e Hurtmold). Por isso, tenho grande convicção de que Toe não é uma banda regional e sim de apelo universal (ainda que tenha elementos da música japonesa)

Um som universal, é claro, tem de ser acessível a todos e o japonês com toda certeza não é exatamente uma língua franca.  Só que como quase toda banda de post-rock, Toe não tem vocais. Digo, Toe QUASE não tem vocais. Em alguns raros momentos durante o álbum há sim a presença de uma voz. Mas uma voz que aparece mais como um instrumento do que como uma maneira de se expressar liricamente (ou espero que não, já que não entendo bulhufas do que é dito). Uma voz que, como todos os outros instrumentos que permeiam a obra, está ali para somar e não para destoar. Ali se encontra como parte da harmonia, mais uma das muitas camadas que somadas formam um som quase plástico.

Além da falta de identificação lírica, um som universal também tem, muitas vezes, uma falta de associação auditiva e melódica (não que ambos sejam sequer pré-requisitos para tal efeito). E, como no caso do lirismo, Toe ao mesmo tempo tem e não tem uma identificação com o som regional japonês. Não sou nenhum aficcionado na música folclórica japonesa, e em grande parte sou um desconhecedor. Mas sei que guitarras, bateria e baixo não são elementos à ela inerentes. Mas Toe não é, nem de longe, uma banda tradicional. Sua identificação não é uma de velha guarda mas sim uma com os seus contemporâneos.

Como havia dito, no Japão, já há algum tempo, surgiu uma cena bem interessante que engloba os mais diversos tipos de rock. Só que, por mais variada que seja, ela tem uma tendência. Uma tendência ao virtuosismo, à experimentação e a forma. E no caso do Toe não é diferente. O post-rock japonês, diferente do brasileiro, por exemplo, é bem mais complexo e estruturado, com muitas camadas de som e harmonias quase que conflitantes. Uma pequena ópera com aspirações megalomaníacas. O brasileiro, por outro lado, segue a tendência dos outros estilos nacionais e busca uma estética mais minimalista, muitas vezes com um crescendo marcante e uma estrutura simples. E é por exemplos como esse que tendo a dizer que o post-rock é sim um estilo universal. Pode-se até argumentar que o post-rock é sequer um estilo, mas não de que há algum traço de regionalidade exclusiva, mas sim de um grande panorama composto por influências de todo canto.

Só que, infelizmente, o post-rock vem, ao longo dos anos, se saturando e deixando de ser a mesma panela de pressão experimental que era. Toe, por outro lado, não. Uma exceção em tantas coisas não poderia ser taxada simplesmente com mais um fruto genérico do gênero. Toe, aliás, não se limita ao post-rock, ainda que sua estrutura musical seja por ele muito influenciada.

No Math rock encontraram um amor incondicional à técnica, a composição exacerbadamente premeditada. A vontade de fundir o casual com o calculado. Infinitos diálogos entre guitarras que, apesar de parecerem frutos de um acaso caótico, são concebidos de antemão pelas mentes obcecadas de Takaaki e Hirokazu. No rock progressivo uma inspiração para a criação de pequenas suites, epopeias da música popular.

Mas é, para mim, do Jazz que vem o ponto alto do grupo. Além da influência sofrida por todo o post-rock do free jazz, a falsa impressão de improviso que também foi adotada no math rock, Toe pega também uma referência mais específica. Takasi, o baterista, mostra o tempo todo uma grande influência da música negra e, em específico do jazz. Os tempos marcados quase díspares aos do restante da banda; a levada não característica ao rock e um protagonismo raro, já que a bateria é relegada na maior parte das bandas à um papel secundário.

Apesar de toda essa inovação, Toe não é exatamente novo. A força da banda vem da capacidade de misturar e agregar à um estilo já saturado mas não de reinventá-lo. Um ouvido menos atento, por exemplo, poderia passar despercebido por toda essa combinação de estilos e ver em Toe apenas mais uma banda instrumental.

Toe vem como uma força a ser reconhecida na música instrumental e a tendência é só aumentar. E, se você não se cativou por algum motivo ao ouvir pela primeira vez, dê uma chance quando estiver caminhando ou no carro. Toe vai transformar aquele transporte diário em uma percepção diferenciada do seu redor, vai adicionar ritmo à sua normalidade.

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