Cap’n Jazz – Analphabetapolothology

Quase todos os gêneros mudam. Uns se atualizam, como o rock, outros criam novas vertentes sem excluir suas raízes, como o punk. Mas alguns poucos e raros casos se transformam completamente e acabam por se tornar algo completamente diferente – e infelizmente, na maior parte das vezes, pior- e assim seguem por anos à fio, sem nem sequer olhar para trás.

Existem casos famosos de tais mudanças, como no caso do folk americano, e até mesmo casos que estão ocorrendo agora, mais especificamente o dubstep. Só que nenhum deles sofreu uma transformação quanto um outro estilo, o emo. Pergunte para uma pessoa na rua o que lhe remete a palavra emo. A maioria esmagadora, se não todas, lhe dirão algo nos moldes de franja, choro, maquiagem, gótico, depressivo e por aí vai. Essa noção aborda quase que somente o dito “novo emo”, aquele que fez bastante sucesso como “sub cultura” há uns cinco ou seis anos. Esse novo emo, porém, não poderia ser mais distinto do que o antigo emo, o que era uma vertente direta do post-hardcore e que surgiu no início dos anos 90.

E logo no início desse movimento, dentre muitas outras bandas, surgiu o Cap’n Jazz, formado por dois irmãos, Mike e Tim Kinsella e mais dois amigos numa garagem do subúrbio de Chicago (não pude evitar) no ano de 1989. Ao longo dos anos a banda ajudou a estabelecer o emo, que com o tempo deixou de ser uma vertente amadora para se tornar um verdadeiro estilo já na metade da década de 90. Ainda assim, o gênero, por mais que estabelecido, não se espalhou muito além dos fãs de novas vertentes de hardcore e o Cap’n Jazz acabou se desfazendo em 1995 no auge de seu “sucesso”.

Porém, quase que numa reedição menos trágica da obra de Van Gogh, ao longos dos anos que conseguiram, em especial a partir de 98 quando foi lançada a coletânea Analphabetapolothology, a banda, junto de outros representantes do início do emo, alcançou um sucesso crescente não só limitado à certos fãs de punk e passou a criar toda uma subcultura forte e presente no inicio do novo milênio. E foi dessa subcultura nova, que “redescobriu” os antigos artistas do emo e do post hardcore melódico, que surgiu o então “emo moderno” na fusão desses estilos com influências do pop punk californiano.

Falei e falei sobre o que o influenciou o Cap’n Jazz e o que ele influenciou. Mas o que é, na verdade, o som do Cap’n Jazz? Antes de falar sobre isso, e sobre o álbum que vou resenhar hoje, gostaria de fazer umas poucas ressalvas. Primeiro, o álbum é uma coletânea do trabalho da banda, ou seja, não necessariamente tem uma sinergia. E segundo, o álbum tem 34 músicas. Mas são 34 músicas de em torno de 34 minutos e muitas vezes individuais, o que atrapalha muito o estudo do álbum, já que diferentemente de álbuns como Double Nickels on the Dime que foram planejados para tal, o Analphabetapolothology não foi concebido nessa forma.

Dito isso, prossigamos. Como já havia adiantado, o emo original é vertente direta do post hardcore, em especial do hardcore melódico de bandas no estilo do Rites of Spring. Por isso, não surpreende que a estética sonora siga o mesmo padrão; é rápida, agressiva, a princípio desordenada e músicas relativamente curtas. É uma banda volátil, não em seu virtuosismo, já que não o possui, mas sim na inconstância de seu som, que as vezes soa alegra (raras vezes) e em outras parece vindo do fundo de uma alma deprimida:

 “I inherited hard boiled eyes. 

it’s like you finally realize how lucky you really are to have had a few great heartbreaks.”

Deprimida muitas vezes em relação à um amor juvenil, uma paixão da juventude que parece eterna mas ainda assim está fadada ao fracasso. É imatura, assim como os seus integrantes, e chora triste à incapacidade de ser amado com ama.

 “you’ll never say another word about blame.
we bit lips. we saucer eyes. i can’t shake the shapeless memories every time i read sassy.
halo my middle a hoola hoop hug. squeeze to warm and ribs stab heart.
now the taste of my teeth reminds me, have i called you today? yesterday i called you never.”

E não é só do amor que vive a juventude, mas também das suas inconsistências, do seu desespero em entender o mundo. Na voz rasgada e muitas vezes desafinada de Kinsella vemos a angustia que lhe perseguia, as incertezas que o cercavam e viviam na penumbra de sua alma.

“i can’t stand standing here like this and i can’t take taking any of this talk serious.
i can’t stand standing here like this and i can’t take taking any of your talk serious.
swimming eyes and spitting whys splitting ties we realize. missed kisses blown through blue night air.
walking you home with a bottle of boones between us. we’re trying so hard to forget who we are.”

Para eles, a vida é uma bagunça, e uma bagunça que não tem arrumação. E foi assim para a maior parte dos emos que criaram esse movimento. Os emos não são chorões, não andam maquiados e usam franjas bisonhas. Eles sentem e vêm na música a única saída de expressar toda a sua angustia existencial. E o Cap’n Jazz faz isso com uma jovialidade e força impares. Mas veja bem, o álbum não é facilmente digerível. Como disse antes, ele nem sequer foi concebido nessa forma e, para piorar, se trata de um conjunto de músicas amadoras, gravadas em um estúdio amador por instrumentistas quase amadores. E ainda que eles, com o passar dos anos, formassem bandas tão importantes quanto o Cap’n Jazz – Owls, Joan d Arc, The Promise Ring e American Football – nenhuma delas, para mim ao menos, conseguiu fazer o que aquela primeira tentativa permitiu nascer.

“fire is motion. work is repetition. this is my document.
we are all all we’ve done. we are all all we’ve done. we are all all defenses.
fire is motion. is motion growth?”

Posso ser um pouco suspeito para falar da banda, já que a considero uma das minhas favoritas (tenho até a minha capa do facebook em homenagem à eles). Ainda assim, acho que minha predileção por eles dentro do emo não seja fruto de puro gosto e sim de toda a obra que eles construíram. Afinal, quem nunca passou por algo que foi descrito nas letras de Kinsella? Quem nunca quis gritar tudo isso, independente do que achem, ou tocar, batucar, o que seja.

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