Uma pequena crítica aos que criticam a crítica

Antes de começar a realizar minha crítica e acabar me alongando demasiadamente, gostaria de dizer umas poucas coisas que não serão compatíveis com o resto do texto. Primeiro, esse post é um experimento, uma tentativa – não isolada, como vocês leitores poderão perceber em algum tempo – de expandir o alcance do blog, mas sem fugir do mundo da música e o que lhe tangencia. Além disso, gostaria muito de saber a opinião de vocês, pouquíssimos mas ainda assim importantes, leitores mesmo que por meio de alguma rede social e não no blog. Agora então, já mais tranquilizado, prosseguirei com o artigo:

O SURGIMENTO DE UM IMPASSE,  OU “COMO AS PESSOAS NÃO SÃO RAZOÁVEIS” 

Como disse antes, gosto muito de me alongar em coisas aparentemente irrelevantes (não se enganem por essa minha frase, elas são quase sempre, no fim das contas, dispensáveis mesmo, mas prossigamos) e hoje não será diferente. Contar-ei uma resumida e simplória história de minha vida como homem pensante e, a princípio, capaz da introspecção e da reflexão:

Desde jovem apresentei e desenvolvi um traçado da minha personalidade que sempre me seguiu, mesmo após as muitas mudanças de comportamento pelas quais passei, a timidez. Veja, não sou exatamente quieto, pelo contrário, quando estou em um ambiente que considero confortável eu na maior parte das vezes acabo por me fazer ouvir em excesso e sou bastante espaçoso. Mas, em ambientes novos ou em que não tenha adquirido um certo grau de confiança tendo a ter essa característica quieta e até certo ponto antipática.  Toda essa passividade social que Deus – ou D’us, ou Yaveh, ou (insira divindade suprema aqui) ou nada (se for ateu) – me concedeu somada a um quase auto imposto distanciamento me fizeram ver as pessoas de maneira diferente da maior parte de meus similares (como aprendi com o tempo, nem um pouco mais agradável).

Essa maneira diferenciada consiste basicamente em por-se como espectador e não como agente da maior parte das relações sociais. Seria, numa comparação esdrúxula, a mosca do coco do cavalo do bandido. Estou no epicentro da ação e tenho uma visão privilegiada mas ainda assim não me faço por sentir. Salvo as diferenças de motivação (aposto que a mosca teria algo de relevante para dizer em relação ao ocorrido) acho que me fiz por entender. Em decorrência dessa inevitabilidade da minha condição, acabei por, ao longo dos anos, aprendendo a tirar o melhor proveito da mesma, ainda que sem muito ânimo. Pude ver, ao longo de infindáveis e incontáveis vezes, o quão o homem não é razoável e se põe em contradição corriqueiramente, ainda que nos seus pormenores.

E, sem dúvida alguma, o que mais me incomoda, me enraivece, diria inclusive que mais me faz perder fé nos meus semelhantes é a incapacidade de separar as coisas. As pessoas parecem completamente ignorantes e mergulhadas num tipo doentio e social de idiossincrasia em relação a diferenciação de opiniões, fatos, gosto e outros. Até mesmo na incapacidade de compreender que discordar não é, de maneira alguma, necessariamente  ser a favor do contrário. Claro, eu sei muito bem que todos nós erramos – e muito – e que ninguém, nem meu digníssimo Aristóteles se viu longe de tal

Até Aristóteles, um dos primeiros críticos/filósofos/matemáticos/físicos/biologistas/botânicos/super-herói de todos os tempos errava.

ato. Ainda assim, errar tendo a condição de acertar não é justificável. Por isso mesmo já de antemão digo que estou tratando de pessoas com, a principio, uma formação intelectual e escolar suficientemente boa para tal coisa. Não estou tratando de pessoas ignorantes não por vontade própria e sim por falta de conhecimento mas sim de pessoas que, na sua própria soberba intelectual acabam por cometer os mais variados e crassos erros de lógica e/ou (mais possivelmente e) de argumentação.

QUANDO,COMO E ONDE, OU DA NATUREZA DO ERRO 

Serei o mais breve possível nessa parte, até por não haver muito o que se dizer. O erro ocorre em todas as situações possíveis, desde a discussão sobre uma crítica à alguma obra de arte até sobre a escolha do seu time de futebol preferido. Assim como no seu quando, o erro tem no seu onde uma pluralidade incrível de opções. Seja na mais alta corte da justiça até o mais simples e humilde botequim, o esse erro está presente em todos os lugares, quase como uma maldição onisciente que algum espírito mal aventurado nos lançou. E o como não foge à regra. Está presente em diversas maneiras passando do inconsciente até a má fé.

 O ERRO DO ERRO, OU O PORQUE DE EU ESTAR ESCREVENDO ESSE TEXTO

Pois bem, já se foram quase 800 palavras e nada de eu explicar o porque desse erro ser erro e aonde isso se aplica no que tange o blog. No need to hurry meu querido leitor, pois aqui vai: Como pseudo (e põe pseudo nisso) crítico de variadas formas de arte nas horas vagas e apreciador das mesmas em tempo integral, me vejo na obrigação de defender essa ciência tão antiga e necessária para a humanidade; a crítica, em todos os seus muitos âmbitos. Arriscaria dizer, inclusive, que sem ela não haveria ocorrido progresso algum por parte dos nossos antepassados (ainda que ache que a palavra progresso possa trazer certas conotações negativas, como na visão de Ortega y Gasset).

A crítica é parte essencial de tudo que o homem produz, pois sem ela não há comprovação ou reiteração do provado. Sem a crítica, não há, por exemplo, como estabelecer-se uma ciência padronizada e funcional, já que os colegas jamais discordariam do apresentado por outros cientistas e, assim, viveríamos estagnados numa teoria única e mal formulada ou numa sucessiva e quase instantânea troca de teorias tidas como aceitáveis e concretas. A questão é, isso não ocorre com a ciência graças ao trabalho de séculos de algumas das grandes mentes da humanidade que, por esforços conjuntos – e muitas vezes involuntários – acabaram por ruir com a ideia de que a ciência não depende essencialmente deste ciclo de crítica e reformulação.

Você então, perguntaria: Porque raios então as pessoas não persistem nesse erro na ciência mas o fazem em relação as artes? Tudo não passa de uma questão afetiva. As pessoas têm, impressionantemente, uma incapacidade de separar a sua estima afetiva de algo e o valor objetivo e concreto de que algo de fato tem. É algo similar ao que acontece com a Teoria da Evolução que a deixa numa situação diferente em relação às outras teorias da ciência (viu, mesmo assim ela não escapa). O darwinismo e suas correntes evolutivas, ainda que não caibam a mim serem julgadas certas ou erradas, fizeram muito para que a concepção antiga no seu campo de estudo, baseada na religião, fosse descartada. E justamente por tratar-se de algo que atacou um bem afetivo de muitos, a religião, a teoria da evolução vem, mesmo após décadas, sendo atacada infundadamente pelas pessoas que têm essa relação afetiva em postura desse campo, ainda que elas demonstrem um estranho (e característico) desconhecimento das causas as quais se opõe. É por isso também, que a discussão sobre o esporte organizado é corriqueiramente suplantada por falácias afetuosas ou similares.

A ciência porém, não pode servir de regra geral, pois ela tem uma diferença central em posição da arte. A ciência é absoluta até que se prove o contrário. A crítica científica trata de questões objetivas e comuns a todos, não podendo haver “variações”. Veja bem, não digo que a ciência não é abstrata, longe disso aliás tendo em vista a própria matemática, o mais belo construto abstrato do homem na minha opinião, e sim que ela dentro de suas premissas é una. Ela não trata de sensações, ela não trata de opiniões.

O CASO DA ARTE, OU FINALMENTE NOS FINALMENTES 

Como disse anteriormente, a arte é um caso à parte. Ainda que, todo homem deva poder opinar sobre qualquer coisa, nos moldes de Terêncio “Homo sum; humani nil a me alienum puto.” (sou humano, nada que é humano me é estranho), todos tem maior ou menor embasamento para opinar. Nas ciências essa discrepância de embasamento é maior, mas não exclusiva. Por isso, quero deixar claro que jamais me compararia, hoje ao menos, à figuras como Otto Maria Carpeaux para a literatura, por exemplo. Isso não me impede, porém, de realizar meus próprios julgamentos sobre as artes, que são, por natureza subjetivas.

Ainda que seja parcialmente subjetiva, a arte não é despida de argumentação quando em face de críticas. Jamais uma crítica decente de alguma manifestação artística deve tanger o campo da subjetividade absoluta (ou ao menos deixar transparecer). Ainda que os argumentos em sua cerne possam ser oriundos das experiências sensoriais (para o desgosto de Platão e seus irmãos metafísicos) eles não estão despidos de valor argumentativo. A questão é como, logicamente, eles vão ser apresentados e o quão menos subjetivos eles são.

Antes de exemplificar a diferença argumentativa que pode-se encontrar nas críticas, gostaria de fazer uma ressalva importantíssima, talvez tão importante quanto o que voltarei a falar. Gosto é completamente diferente de qualidade objetiva e valorada. Você pode gostar do que quiser, quando quiser e como quiser (desde que, dentro de uma certa ética e moralidade que não cabe ser discutida nesse artigo). Isso porém, não te dá a condição de argumentar, veja bem, argumentar a favor da qualidade disso, ou mesmo contra quando algo lhe desgosta. O gosto deve antes de tudo estar livre de pretensões argumentativas, de qualquer justificativa. Claro, o gosto pode calhar com a qualidade, e isso vai ocorrer com muita frequência, só que isso não implica uma mutualidade necessária.Exemplificarei:

“Gosto de Jack Johnson” – até ai, tudo bem. Gosto em sua forma mais pura, sem adesão de nenhuma justificativa.

“Gosto de Jack Johnson porque ele a sua música me anima” – menos certeiro já que cria chances de uma discórdia. A questão central do gosto é ser indiscutível, e assim estaria-se dando lenha à fogueira. Ainda assim é razoavelmente aceitável pois tange somente as suas opiniões, que são, a princípio suas.

“Gosto de Jack Johnson porque sua música é boa” – é ai, meus caros, que se encontra o erro que leva a toda a discussão desse artigo. Partiremos de um ponto que Jack Johnson faz, de fato, música boa. Isso não quer dizer, porém que seu gosto e sua opinião argumentativa devem andar juntos já que ambos tratam de campos completamente diferentes, a pessoalidade e a, teoricamente, impessoalidade. Quando digo, EU gosto de Jack Johnson, estou tratando de uma característica e ponto de vistas exclusivos meus. Quando aumento o alcance para, Jack Johnson É bom, estou não tratando somente mais de meu ponto de vista e sim comparando-o com o de alguém ou com algo, pois para que algo seja bom, outro tem que ser comparativamente pior. E a partir dai, é necessário um embasamento argumentativo, que não deve estar presente na opinião.

Isso não é dizer, porém, que a opinião argumentativa seja perfeita. Pelo contrário, ela é normalmente é imperfeita e provavelmente nunca chegaremos à um consenso objetivo como no caso da ciência. Mas ainda assim, todo o ponto da argumentação é comparar um argumento ao outro, levando à reflexão, à introspecção e ao auto questionamento. Por isso, a necessidade de separar-se o argumento do gosto. O gosto não precisa ser embasado, logo, ao ser expressado não levará à uma reflexão por parte de quem o disse ou de quem o ouviu. O argumento, por outro lado, deve vir com essa capacidade, formentando então a capacidade intelectual dessa pessoa.

Voltemos então ao problema central: as pessoas. Por mais que para a maior parte delas essa divisão de argumento e opinião deva ser natural, elas na sua maioria se veem incapazes de separar-los. Não é muitas vezes sequer imaginável. Para muitas pessoas, por exemplo, é quase um crime dizer que seu artista favorito é ruim, ou que seu autor predileto não é lá muito habilidoso com as palavras. O problema na atitudes deles está não no fato de discordar, mas sim na maneira da discordância. Não discordam ao apresentar argumentos e sim pela clássica frase “Gosto não se discute” mesmo quando, realmente, o que se está tratando não é o gosto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS, OU CONSIDERAÇÕES FINAIS MESMO 

Esse pequeno post teve, como intuito, justificar a necessidade da crítica que ainda imperfeita e incompleta, tem um papel importantíssimo a cumprir no estudo das artes e na formação do caráter intelectual de qualquer pessoa, e preferencialmente por discordar do que foi dito e não concordar. A crítica, serve para não somente criticar mas também ser criticada. É um mecanismo incrível para a reflexão humana e que deve ser exercitado com frequência.

PS: Sei que posso ter parecido um pouco prepotente em certos pontos do texto, mas prefiro ser taxado de prepotente a um agente completamente passivo intelectualmente. Se não o faço fisicamente, no intelectual é o mínimo que devo entrar.

PPS: Neutral Milk Hotel é superestimado.

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