The National – Alligator

Grandes bandas têm, na grande parte das vezes, uma estética própria. Essa estética, por sua vez, não precisa ser única, mas sim presente. Até porque, o maior sinal da grandeza de uma banda (e não necessariamente de qualidade) é a capacidade de influenciar toda a visão ou atitude de uma (ou mais) pessoa. E é por essa estética que a maior parte delas o consegue. The National é, sem dúvida, uma grande banda.  Logo, há de se imaginar que a banda possui uma estética forte e marcante. Só que o que acontece é justamente o contrário. Eles possuem sim uma estética, mas todo o charme de sua estética está justamente na sua falta de pretensão.

Veja a capa do Alligator. E do boxer. Ao que elas te remetem? A mim, ao menos, a um baile. Não um baile qualquer, mas o baile com que a maior parte das pessoas tenta esquecer (ao menos na impressão que os estado-unidenses nos passam), o baile de formatura. E The National é justamente isso, uma banda feita para sua formatura e o que se segue dali. É claro que não estou dizendo que todas as pessoas tentam esquecer seu baile, algumas delas o estimam muitíssimo. Mas, para grande parte do público alvo do gênero (que os próprios integrantes da banda também são), a formatura tem sim motivos para ser esquecida. Quer seja por um amor perdido

“Whatever you do
Listen, you better wait for me
No, I wouldn’t go out alone” 

ou por um amor que nem sequer tenha sido achado.

E não só a noite do baile lhes é traumática e sim todo o ideal que ele representa. O colegial frustado, os sonhos que em face da maturidade recém adquirida, já não mais parecem tão possíveis  ou até mesmo por conta da aceitação. Diria inclusive, à pesar do que já havia dito, que TODO aluno do colegial sai machucado. Se ele se enquadra, sacrifica coisas que lhe eram importantes e muitas vezes mal sabe se portar.

“You turn me good and god-fearing
Well, tell me what am I supposed to do with that
I’m missing something “

Se não se enquadra, sente-se sozinho nos seus ideais. O que já havia sido perseguido não mais lhe sacia. Por que lhe saciariam, aliás, se mal o conseguiram fazer ser aceito? Do que adiantam, ora bolas, se não para sustentar sua auto estima?

“Take all your reasons and take them away
To the middle of nowhere, and on your way home
Throw from your window your record collection
They all run together and never make sense
But that’s how we like it, and that’s all we want
 Something to cry for, and something to hunt”

E mesmo o que, a princípio, era bem aceito por quem era, amado pela sua natureza e não por máscaras ou reflexões distorcidas de sua razão, não pode escapar dos traumas do colegiando. Mesmo aquele que era um símbolo do sucesso, ainda que em escala estudantil, ao passar da sua vida suburbana e das asas da sua alma mater, ver-se-à  em fronte da realidade de todos. Não somente mais das mesmas pessoas que o faziam desde que se dera por gente. Agora, seus colegas, seus iguais, não são mais seus admiradores e sim seus depreciadores.

“I wish that I believed in fate
I wish I didn’t sleep so late
 I used to be carried in the arms of cheerleaders”

No fim das contas, o apelo do National está aí. Com seu som contido, propositalmente meticuloso e sucinto, remetendo aquela fatídica noite, ponto culminante de toda sua angustia juvenil. Um som longe da visceralidade mas ainda assim cru, cru não por jovem mas sim por estar despido de suas convenções, sendo o que lhe convém ser e não o que querem que o seja. Por sinal, também é bem longe da juventude o ponto em que a voz barítona de Matt está. É uma voz cansada, torneada por suas experiências, ainda assim incapaz de cicatrizar aquelas feridas; fruto maldito de uma experiência frustrada e inapagável que foi sua escola.

Justamente o National tenta ser esquecido. Não por fugir ao sucesso, mas para tentar ser o exato oposto do que lhe assola, da memória que permeia toda sua frustração, toda sua sensação de fracasso. E ainda assim falha. Mas é nessa falha, nessa incapacidade quase que incidental e poética que reside toda a força do som do National. Na sua condição de derrotado, ainda que consciente. Afinal, eles também sabem que nada é completamente esquecível.

E eles sabem que enquanto estão tentando sarar essas feridas os outros simplesmente não os vão esperar. Eles sabem que, inevitavelmente essas feridas vão continuar abertas e que as próximas fases das nossas vidas não vão ser gentis ou sequer compreensivas com essa ferida tão profunda e latejante. No fim das contas, eles mesmo já às sustêm.

“The English are waiting
And I don’t know what to do
In my best clothes

I’m the new blue blood, I’m the great white hope
I’m the new blue blood”

E é assim, por meio da música, que dois pares de irmãos se juntaram para enfrentar uma mesma ferida. Uma ferida comum não só a eles mas sim a todas as pessoas.

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