The Tallest Man on Earth – The Wild Hunt

Nós, os ouvintes, reles espectadores – e até certo ponto desconhecedores – da música somos muitas vezes tão ou mais cruéis do que qualquer crítico pode ser. Podemos, num piscar de olhos, estigmatizar todo o trabalho de um artista por pequenas questões, notas de rodapé em frente ao seu trabalho. E por mais injusto que isso pareça, é, de fato, o que fazemos. E não foi diferente em relação ao trabalho de Kristian Matsson, mais conhecido como The tallest man on earth. A injustiça a ele cometida não sequer foi realizada pelo dito grande público, que por sinal não o conhece, e sim por parte dos apreciadores da dita “música alternativa” (que é, para mim ao menos, um conceito quase ultrapassado), que tanto lhes apetece falar em quão iluminados e a prova de falhas são.

Esse “público”, quem em até certo ponto recebeu bem o trabalho de Kristian, não cometeu um erro de má fé e sim de ingenuidade.  E esse erro tem um nome: “Dylancore”. As similaridades entre ambos são, realmente, acentuadas. Ambos tem uma voz aguda e de certa maneira rasgada. Ambos tem o seu foco nos instrumentos de corda acústicos e só. Foi fácil para o público resumir e associar superficialmente ambas as obras sem perceber o quão diferente é o trabalho de Kristian é do de Dylan. Não digo nem que um é melhor do que o outro, apesar de Dylan ter uma das maiores obras da música moderna, não por achar que Kristian se iguale ao velho Tambourine Men e sim porque ambos são muito diferentes nas próprias similaridades.

Diz-se que ambos são representantes do gênero Folk, que por si só já é um emaranhado de sons. Folk, vindo de folklore, do inglês, teoricamente representaria os sons que trouxessem uma reminiscência de um povo ou terra. Ao longo dos anos esse termo, como muitas vezes acontece, acabou sendo apropriado pela cultura norte americana e passou a representar quase que exclusivamente os sons do interior americano, quase que um country moderno, tendo todos uma estética, que viria a ser associada à Dylan, de um homem e a mensagem que lhe convém remeter (nem sempre folclórica ou sequer com raízes de seu povo). O problema da classificação do som de Kristian nesse gênero não tem exatamente a ver com pertencer a outra “corrente” e sim em como ele está dentro do próprio folk. The Tallest Man on Earth é, sem dúvidas, folk. Mas não o folk de Dylan e sim um folk que por meio da voz angustiada de um homem sozinho, o homem mais alto da terra, trás consigo todo um imaginário do inóspito interior sueco, a terra natal de Kristian.

Não vejo outra alcunha melhor do que a que o próprio Kristian se deu. O homem mais alto da terra, o único dentre os seus irmãos, um homem sozinho e machucado, um estranho em seu próprio ninho. No decorrer de todo o álbum podemos perceber o quão angustiado e com o coração partido ele está. Ao fechar meus olhos enquanto ouço o álbum, não consigo deixar de imaginar um homem, sozinho em toda sua amargura, sentado no meio de uma cabana rústica no meio da taiga, dialogando com a própria natureza sobre a sua condição impar e involuntária. Um homem isolado, já cansado de sua caçada à, entre muitas coisas, o amor. Cansado de correr e ser deixado para trás. O próprio homem reforça isso ao, em vão, dizer:

But I hope you could hear/All the screams from the forest /All the ghosts in the trees /And the love of a dog /Let us float in the tears /Let us cry from the laughters /When it’s not for some sake /And the city’s not near”

Ela estava, afinal, voltando para casa, para a cidade da qual, ao menos ele, tentava de todas as maneiras fugir. Ainda que machucado e roto em suas próprias decepções, o homem mais alto da terra não é desesperançoso.

” But there’s that sign up to a hill to see the far of the land/ Well the sign will say, “There’s still a higher one”/ And now the day is slowly setting, and the lights on where you’re sleeping/ So I hope somewhere that troubles will be gone”

Ainda sim é capaz. É capaz de tentar ser aceito. Voltar aqueles que outrora o machucaram e que, como ele bem sabe, o machucarão de novo. Volta, não porque lhe pese algum fardo inexistente de culpa mas sim porque espera com todas as forças que eles não são tão errados como pensa. Tem alguma capacidade de se redimir perante ele, reconhecer ao menos, o que fizeram. E que mesmo que não o façam, ele ainda tem a esperança de em outro lugar, habitado pelo mesmo ser, ainda haja lugar para um estranho.

“Still I am not from Barcelona, /I am not even from Madrid./I am a native of the North Pole /And that can mess up any kid.”

Independentemente de toda essa esperança, da inapagável chama da vontade que lhe aquece, da inocência quase infantil, ele sabe. Ele sabe, sem dúvidas, que por mais que tente, por maior que seja seu impeto ele sempre vai estar em fuga. Uma fuga para de encontro com si mesmo, no fundo das geladas taigas aonde só ele, e mais ninguém, vai poder lhe compreender, mesmo que essa compreensão nunca venha ser compartilhada. Ele sabe, afinal, que o amor, sua emoções tem algum par, mesmo que não por agora. E ele canta, não em sueco, sua língua mãe que seus semelhantes usaram para o excluir e sim em inglês, com uma esperança de talvez conseguir fazer-se ouvir para esse par.

“And no we will never be a part of the pictures once taken /When we’re feeding fire with the flames til no memories gone/ And the cold sky will write us a song /But will we ever confess what we’ve done?/Guess we’re still kids on the run”

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