Streetlight Manifesto – Everything Went Numb

Me lembro que, quando tentei fazer um já finado, blog de música, este foi o primeiro cd que resenhei sobre. Já se passaram alguns anos e minha adoração por tudo o que já foi produzido por essa banda não diminui em nada.

INTRODUÇÃO   

Pra quem não os conhece, o Streetlight Manifesto é uma banda surgida após a saída do vocalista e compositor da banda Catch 22, Tomas Kalnoky. Após a sua saída, Kalnoky criou uma outra banda, a Bandits of the acoustic revolution com outros membros antigos do Catch 22 e outros, incluindo seu irmão. Depois de gravarem um pequeno EP sobre esse nome, eles começaram uma “nova” banda com o nome de Streetlight Manifesto, que hoje já lançou 4 full releases e está se preparando para o lançamento do seu 5º (que possivelmente saí este ano). Viver as expectativas deixadas pelo Catch 22 que havia acabado de lançar a sua obra prima, Keasbey Nights (que depois viria a ser regravado pelo próprio Streetlight) não era tarefa fácil. Mesmo assim, Kalnoky e seus ex companheiros de banda tentaram, e, na minha humilde opinião, conseguiram produzir uma obra prima tão significativa quanto. Mas para entender o que esse cd significa para a história do ska, eu vou precisar fazer um pequeno panorama do que era, e ainda é o ska.

UM POUCO DE HISTÓRIA 

Após as suas origens jamaicanas, o ska foi importado juntamente do reggae para a Grã-Bretanha, que no fim dos anos 70 recebeu de braços abertos ambos os estilos, que fica bem evidente ao se ver como bandas/artistas do naipe do The Clash e Eric Clapton beberam muito da fonte desses estilos. Com isso surgiu o movimento 2tone, encabeçado pela banda The Specials, que popularizou o ska (ainda que por pouco tempo) como um gênero de música mainstream da época. Após esse impacto causado pelo 2tone, apereceu o que é chamada de “terceira onda do ska” ou também conhecida como o gênero Ska-core/Ska-punk.

Esse gênero surgiu no início dos anos 90, assim como muitos outros estilos que receberam a alcunha “algo-punk”. No caso do Ska, o termo teve, na forma de Ska-core, uma de suas primeiras aparições no nome de um álbum da banda Mighty Mighty Bosstones (que é para mim, a outra grande banda do Ska-core e que eu irei falar em algum ponto do futuro com toda certeza). Só que, ao invés de seguir a temática social que era presente no punk e no ska original, o Ska-core, infelizmente, acabou se destacando pela sua atitude juvenil com banda como Reel Big Fish e Less Than Jake. Ainda que o som dessas bandas fosse, e ainda seja, divertido pra caramba, eles levaram a uma falta de maturidade ao gênero logo na hora em que ele mais precisava. E é daí que vem todo o hype em torno do Keasbey Nights. Kb foi a luz no fim do túnel para o Ska-core, fundindo a sonoridade rápida, divertida e por vezes agressiva do Ska-core com letras de conteúdo mais interessante, trazendo a então tão esperada maturidade para o gênero.

FINALMENTE, A RESENHA!

Bem, finalmente chegamos na parte em que eu, seu humilde resenhista (essa palavra existe?) quase favorito os explica o porque de Everything Went Numb ser tão bom. Como já havia sido dito no “tópico” anterior, o ska era um gênero que precisava de salvação e na hora em que o seu salvador, Catch 22, lançou sua obra prima, a banda se separa e o ska fica a mercê de músicas sobre maconha e festinhas de fraternidade novamente. E é nesse momento negro da história do Ska em que o Streetlight Manifesto faz sua aparição inesperada para salvar o dia.

Veja bem, o que o ska mais precisava era de um som mais maduro, tanto liricamente  quando musicalmente. E quando o Catch 22 conseguiu fazer isto, ele acabou sendo consumido em brigas internas. Mas é ai, que Kalnoky, a mente criativa por trás das composições liricas do Catch 22, se junta com alguns ex-companheiros de banda e alguns outros conhecidos para formar essa nova banda. E logo antes de fazerem qualquer show, eles já lançaram seu primeiro cd. E quê cd.

O álbum já abre logo com a faixa título, Everything went numb. E logo de cara já se percebem as muitas similaridades entre o SM e sua banda progenitora.  Os coros da banda em pequenas palavras durante a música, o ritmo relativamente acelerado, a presença constante dos instrumentos de sopro na música (que, por mais incrível que pareça, não é unanimidade no ska) e a voz marcada e rasgada de Tomas, que são, como já havia dito antes, a cara do Catch 22. Isso quer dizer então que a única coisa boa que o SM trouxe pro Ska foi copiar o Catch 22? Não, e sequer cogitar isso é subestimar muito a qualidade de EWN. Assim como Kalnoky, o som da banda está muito mais amadurecido do que no Catch 22. Percebe-se, por exemplo, que a qualidade da produção é anos-luz à frente do Keasbey Nights (ainda que muitos insistam em dizer que isso não é um bom sinal). As letras, apesar de seguirem uma temática relativamente parecida com a do Keasbey Nights, são mais decididas. E principalmente, tratam de temas muitos mais complexos e até certo ponto, deprimentes do que os tratados pelas outras bandas de ska. Veja por exemplo um pedaço de Point/Counterpoint (minha música favorita do cd, e se bobear, de todo Ska):

So tell me friend, how’s it going to end?
When the shit goes down and there’s no one left around to get your back
You’ll crack
You’ll smile and agree with everything they say
They’ll try to tell you that it’s all okay
But it’s not and you’re shot and you’re bleeding pretty bad
And you can’t stop thinking about the things you never had
Like a wife and a kid and the things you never did
You’re running around
You’re living a life that’s empty in the end, my friend

 

E não é só liricamente que a banda se destaca. Como eu venho dizendo, maturidade é quase um tema escondido durante o álbum. As letras tratam de conflitos típicos de um jovem-adulto, mas não no sentido de “pô, em que balada eu vou nesse fim-de-semana?” e sim “porque essa sociedade é tão hipócrita e marginalizadora?”, e o som não podia seguir um caminho diferente. A guitarra e bateria, os marca passos do álbum dividem perfeitamente o espaço com os instrumentos de sopro e a voz de Kalnoky, coisa que poucas bandas de ska conseguem manter por muitas músicas. É de uma coesão incrível, como durante toda a troca de tempo frenética durante o álbum, seja crescendo ou diminuindo, os instrumentos trabalham em várias camadas e ritmos e ainda assim soam juntos. A maturidade, realmente, é o tema central desse cd, mesmo que involuntariamente e não poderia ter sido diferente.  Não irei me dirigir e falar de faixa por faixa, até porque acho que todas elas são magníficas e merecem serem ouvidas e reouvidas.

 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse é, afinal, um álbum peculiar. O Ska por si só, já é nas suas origens um som alegre que levava junto de si uma mensagem social melancólica. E EWN é, antes de tudo, um álbum de ska. É claro que, no fim das contas, esse é o tipo de álbum que a maior parte das pessoas iria ouvir no carro, indo pra praia no meio do verão. Mas mesmo assim, não subestime a capacidade dele de te por pra cima naqueles momentos mais difíceis e complicados, porque, por cima desse som alegre (e ótimo por sinal) existem mensagens que nunca são ditas demais. Ou seja, OUÇA ESSE ÁLBUM NEM QUE SEJA A ÚLTIMA COISA QUE VOCÊ FAÇA!

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