Arquivo mensal: março 2012

Mixtape Nº1 (25/02 ~ 26/03)

Desde a criação do blog, nós tivemos essa ideia de fazer todo mês uma mixtape com as melhores músicas (nas nossas opiniões obviamente) de cada álbum que foi comentado durante o mês. Mixtape pra quem não sabe é uma pequena coletânea de músicas, o termo surge quando as pessoas faziam fitas cassettes que continham algumas músicas gravadas direto do vinil.

Inicialmente eu ia fazer esse post na segunda feira, porém devido a certos contratempos só pude publicar hoje.  Logo mais abaixo você pode ver o link do Grooveshark e o link para download da nossa primeira mixtape. Agora você confere a tracklist:

Streetlight Manifesto – A Better Place, a Better Time

Tallest Man on Earth – A Lion’s Heart

Montezumas – Blame the Dogs

Mark Lanegan Band – Bleeding Muddy Water

Shrinebuilder – Blind For All To See

Radical Face – Glory

The National – Mr. November

Greenland is Melting – No More Sorry Songs

Nirvana  – Spank Thru

Shadow Shadow Shade  – Suffocate Us

Andrew Jackson Jihad – Survival Song

Burning Witch – Tower Place

Cloud Nothings – Wasted Days

Leonard Cohen -Winter Lady 

Beach House – Zebra

 

Grooveshark: http://grooveshark.com/#!/playlist/Mixtape+1/70868763

Download: http://www.mediafire.com/?gbqd2pys7gteme2

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Cap’n Jazz – Analphabetapolothology

Quase todos os gêneros mudam. Uns se atualizam, como o rock, outros criam novas vertentes sem excluir suas raízes, como o punk. Mas alguns poucos e raros casos se transformam completamente e acabam por se tornar algo completamente diferente – e infelizmente, na maior parte das vezes, pior- e assim seguem por anos à fio, sem nem sequer olhar para trás.

Existem casos famosos de tais mudanças, como no caso do folk americano, e até mesmo casos que estão ocorrendo agora, mais especificamente o dubstep. Só que nenhum deles sofreu uma transformação quanto um outro estilo, o emo. Pergunte para uma pessoa na rua o que lhe remete a palavra emo. A maioria esmagadora, se não todas, lhe dirão algo nos moldes de franja, choro, maquiagem, gótico, depressivo e por aí vai. Essa noção aborda quase que somente o dito “novo emo”, aquele que fez bastante sucesso como “sub cultura” há uns cinco ou seis anos. Esse novo emo, porém, não poderia ser mais distinto do que o antigo emo, o que era uma vertente direta do post-hardcore e que surgiu no início dos anos 90.

E logo no início desse movimento, dentre muitas outras bandas, surgiu o Cap’n Jazz, formado por dois irmãos, Mike e Tim Kinsella e mais dois amigos numa garagem do subúrbio de Chicago (não pude evitar) no ano de 1989. Ao longo dos anos a banda ajudou a estabelecer o emo, que com o tempo deixou de ser uma vertente amadora para se tornar um verdadeiro estilo já na metade da década de 90. Ainda assim, o gênero, por mais que estabelecido, não se espalhou muito além dos fãs de novas vertentes de hardcore e o Cap’n Jazz acabou se desfazendo em 1995 no auge de seu “sucesso”.

Porém, quase que numa reedição menos trágica da obra de Van Gogh, ao longos dos anos que conseguiram, em especial a partir de 98 quando foi lançada a coletânea Analphabetapolothology, a banda, junto de outros representantes do início do emo, alcançou um sucesso crescente não só limitado à certos fãs de punk e passou a criar toda uma subcultura forte e presente no inicio do novo milênio. E foi dessa subcultura nova, que “redescobriu” os antigos artistas do emo e do post hardcore melódico, que surgiu o então “emo moderno” na fusão desses estilos com influências do pop punk californiano.

Falei e falei sobre o que o influenciou o Cap’n Jazz e o que ele influenciou. Mas o que é, na verdade, o som do Cap’n Jazz? Antes de falar sobre isso, e sobre o álbum que vou resenhar hoje, gostaria de fazer umas poucas ressalvas. Primeiro, o álbum é uma coletânea do trabalho da banda, ou seja, não necessariamente tem uma sinergia. E segundo, o álbum tem 34 músicas. Mas são 34 músicas de em torno de 34 minutos e muitas vezes individuais, o que atrapalha muito o estudo do álbum, já que diferentemente de álbuns como Double Nickels on the Dime que foram planejados para tal, o Analphabetapolothology não foi concebido nessa forma.

Dito isso, prossigamos. Como já havia adiantado, o emo original é vertente direta do post hardcore, em especial do hardcore melódico de bandas no estilo do Rites of Spring. Por isso, não surpreende que a estética sonora siga o mesmo padrão; é rápida, agressiva, a princípio desordenada e músicas relativamente curtas. É uma banda volátil, não em seu virtuosismo, já que não o possui, mas sim na inconstância de seu som, que as vezes soa alegra (raras vezes) e em outras parece vindo do fundo de uma alma deprimida:

 “I inherited hard boiled eyes. 

it’s like you finally realize how lucky you really are to have had a few great heartbreaks.”

Deprimida muitas vezes em relação à um amor juvenil, uma paixão da juventude que parece eterna mas ainda assim está fadada ao fracasso. É imatura, assim como os seus integrantes, e chora triste à incapacidade de ser amado com ama.

 “you’ll never say another word about blame.
we bit lips. we saucer eyes. i can’t shake the shapeless memories every time i read sassy.
halo my middle a hoola hoop hug. squeeze to warm and ribs stab heart.
now the taste of my teeth reminds me, have i called you today? yesterday i called you never.”

E não é só do amor que vive a juventude, mas também das suas inconsistências, do seu desespero em entender o mundo. Na voz rasgada e muitas vezes desafinada de Kinsella vemos a angustia que lhe perseguia, as incertezas que o cercavam e viviam na penumbra de sua alma.

“i can’t stand standing here like this and i can’t take taking any of this talk serious.
i can’t stand standing here like this and i can’t take taking any of your talk serious.
swimming eyes and spitting whys splitting ties we realize. missed kisses blown through blue night air.
walking you home with a bottle of boones between us. we’re trying so hard to forget who we are.”

Para eles, a vida é uma bagunça, e uma bagunça que não tem arrumação. E foi assim para a maior parte dos emos que criaram esse movimento. Os emos não são chorões, não andam maquiados e usam franjas bisonhas. Eles sentem e vêm na música a única saída de expressar toda a sua angustia existencial. E o Cap’n Jazz faz isso com uma jovialidade e força impares. Mas veja bem, o álbum não é facilmente digerível. Como disse antes, ele nem sequer foi concebido nessa forma e, para piorar, se trata de um conjunto de músicas amadoras, gravadas em um estúdio amador por instrumentistas quase amadores. E ainda que eles, com o passar dos anos, formassem bandas tão importantes quanto o Cap’n Jazz – Owls, Joan d Arc, The Promise Ring e American Football – nenhuma delas, para mim ao menos, conseguiu fazer o que aquela primeira tentativa permitiu nascer.

“fire is motion. work is repetition. this is my document.
we are all all we’ve done. we are all all we’ve done. we are all all defenses.
fire is motion. is motion growth?”

Posso ser um pouco suspeito para falar da banda, já que a considero uma das minhas favoritas (tenho até a minha capa do facebook em homenagem à eles). Ainda assim, acho que minha predileção por eles dentro do emo não seja fruto de puro gosto e sim de toda a obra que eles construíram. Afinal, quem nunca passou por algo que foi descrito nas letras de Kinsella? Quem nunca quis gritar tudo isso, independente do que achem, ou tocar, batucar, o que seja.

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Uma pequena crítica aos que criticam a crítica

Antes de começar a realizar minha crítica e acabar me alongando demasiadamente, gostaria de dizer umas poucas coisas que não serão compatíveis com o resto do texto. Primeiro, esse post é um experimento, uma tentativa – não isolada, como vocês leitores poderão perceber em algum tempo – de expandir o alcance do blog, mas sem fugir do mundo da música e o que lhe tangencia. Além disso, gostaria muito de saber a opinião de vocês, pouquíssimos mas ainda assim importantes, leitores mesmo que por meio de alguma rede social e não no blog. Agora então, já mais tranquilizado, prosseguirei com o artigo:

O SURGIMENTO DE UM IMPASSE,  OU “COMO AS PESSOAS NÃO SÃO RAZOÁVEIS” 

Como disse antes, gosto muito de me alongar em coisas aparentemente irrelevantes (não se enganem por essa minha frase, elas são quase sempre, no fim das contas, dispensáveis mesmo, mas prossigamos) e hoje não será diferente. Contar-ei uma resumida e simplória história de minha vida como homem pensante e, a princípio, capaz da introspecção e da reflexão:

Desde jovem apresentei e desenvolvi um traçado da minha personalidade que sempre me seguiu, mesmo após as muitas mudanças de comportamento pelas quais passei, a timidez. Veja, não sou exatamente quieto, pelo contrário, quando estou em um ambiente que considero confortável eu na maior parte das vezes acabo por me fazer ouvir em excesso e sou bastante espaçoso. Mas, em ambientes novos ou em que não tenha adquirido um certo grau de confiança tendo a ter essa característica quieta e até certo ponto antipática.  Toda essa passividade social que Deus – ou D’us, ou Yaveh, ou (insira divindade suprema aqui) ou nada (se for ateu) – me concedeu somada a um quase auto imposto distanciamento me fizeram ver as pessoas de maneira diferente da maior parte de meus similares (como aprendi com o tempo, nem um pouco mais agradável).

Essa maneira diferenciada consiste basicamente em por-se como espectador e não como agente da maior parte das relações sociais. Seria, numa comparação esdrúxula, a mosca do coco do cavalo do bandido. Estou no epicentro da ação e tenho uma visão privilegiada mas ainda assim não me faço por sentir. Salvo as diferenças de motivação (aposto que a mosca teria algo de relevante para dizer em relação ao ocorrido) acho que me fiz por entender. Em decorrência dessa inevitabilidade da minha condição, acabei por, ao longo dos anos, aprendendo a tirar o melhor proveito da mesma, ainda que sem muito ânimo. Pude ver, ao longo de infindáveis e incontáveis vezes, o quão o homem não é razoável e se põe em contradição corriqueiramente, ainda que nos seus pormenores.

E, sem dúvida alguma, o que mais me incomoda, me enraivece, diria inclusive que mais me faz perder fé nos meus semelhantes é a incapacidade de separar as coisas. As pessoas parecem completamente ignorantes e mergulhadas num tipo doentio e social de idiossincrasia em relação a diferenciação de opiniões, fatos, gosto e outros. Até mesmo na incapacidade de compreender que discordar não é, de maneira alguma, necessariamente  ser a favor do contrário. Claro, eu sei muito bem que todos nós erramos – e muito – e que ninguém, nem meu digníssimo Aristóteles se viu longe de tal

Até Aristóteles, um dos primeiros críticos/filósofos/matemáticos/físicos/biologistas/botânicos/super-herói de todos os tempos errava.

ato. Ainda assim, errar tendo a condição de acertar não é justificável. Por isso mesmo já de antemão digo que estou tratando de pessoas com, a principio, uma formação intelectual e escolar suficientemente boa para tal coisa. Não estou tratando de pessoas ignorantes não por vontade própria e sim por falta de conhecimento mas sim de pessoas que, na sua própria soberba intelectual acabam por cometer os mais variados e crassos erros de lógica e/ou (mais possivelmente e) de argumentação.

QUANDO,COMO E ONDE, OU DA NATUREZA DO ERRO 

Serei o mais breve possível nessa parte, até por não haver muito o que se dizer. O erro ocorre em todas as situações possíveis, desde a discussão sobre uma crítica à alguma obra de arte até sobre a escolha do seu time de futebol preferido. Assim como no seu quando, o erro tem no seu onde uma pluralidade incrível de opções. Seja na mais alta corte da justiça até o mais simples e humilde botequim, o esse erro está presente em todos os lugares, quase como uma maldição onisciente que algum espírito mal aventurado nos lançou. E o como não foge à regra. Está presente em diversas maneiras passando do inconsciente até a má fé.

 O ERRO DO ERRO, OU O PORQUE DE EU ESTAR ESCREVENDO ESSE TEXTO

Pois bem, já se foram quase 800 palavras e nada de eu explicar o porque desse erro ser erro e aonde isso se aplica no que tange o blog. No need to hurry meu querido leitor, pois aqui vai: Como pseudo (e põe pseudo nisso) crítico de variadas formas de arte nas horas vagas e apreciador das mesmas em tempo integral, me vejo na obrigação de defender essa ciência tão antiga e necessária para a humanidade; a crítica, em todos os seus muitos âmbitos. Arriscaria dizer, inclusive, que sem ela não haveria ocorrido progresso algum por parte dos nossos antepassados (ainda que ache que a palavra progresso possa trazer certas conotações negativas, como na visão de Ortega y Gasset).

A crítica é parte essencial de tudo que o homem produz, pois sem ela não há comprovação ou reiteração do provado. Sem a crítica, não há, por exemplo, como estabelecer-se uma ciência padronizada e funcional, já que os colegas jamais discordariam do apresentado por outros cientistas e, assim, viveríamos estagnados numa teoria única e mal formulada ou numa sucessiva e quase instantânea troca de teorias tidas como aceitáveis e concretas. A questão é, isso não ocorre com a ciência graças ao trabalho de séculos de algumas das grandes mentes da humanidade que, por esforços conjuntos – e muitas vezes involuntários – acabaram por ruir com a ideia de que a ciência não depende essencialmente deste ciclo de crítica e reformulação.

Você então, perguntaria: Porque raios então as pessoas não persistem nesse erro na ciência mas o fazem em relação as artes? Tudo não passa de uma questão afetiva. As pessoas têm, impressionantemente, uma incapacidade de separar a sua estima afetiva de algo e o valor objetivo e concreto de que algo de fato tem. É algo similar ao que acontece com a Teoria da Evolução que a deixa numa situação diferente em relação às outras teorias da ciência (viu, mesmo assim ela não escapa). O darwinismo e suas correntes evolutivas, ainda que não caibam a mim serem julgadas certas ou erradas, fizeram muito para que a concepção antiga no seu campo de estudo, baseada na religião, fosse descartada. E justamente por tratar-se de algo que atacou um bem afetivo de muitos, a religião, a teoria da evolução vem, mesmo após décadas, sendo atacada infundadamente pelas pessoas que têm essa relação afetiva em postura desse campo, ainda que elas demonstrem um estranho (e característico) desconhecimento das causas as quais se opõe. É por isso também, que a discussão sobre o esporte organizado é corriqueiramente suplantada por falácias afetuosas ou similares.

A ciência porém, não pode servir de regra geral, pois ela tem uma diferença central em posição da arte. A ciência é absoluta até que se prove o contrário. A crítica científica trata de questões objetivas e comuns a todos, não podendo haver “variações”. Veja bem, não digo que a ciência não é abstrata, longe disso aliás tendo em vista a própria matemática, o mais belo construto abstrato do homem na minha opinião, e sim que ela dentro de suas premissas é una. Ela não trata de sensações, ela não trata de opiniões.

O CASO DA ARTE, OU FINALMENTE NOS FINALMENTES 

Como disse anteriormente, a arte é um caso à parte. Ainda que, todo homem deva poder opinar sobre qualquer coisa, nos moldes de Terêncio “Homo sum; humani nil a me alienum puto.” (sou humano, nada que é humano me é estranho), todos tem maior ou menor embasamento para opinar. Nas ciências essa discrepância de embasamento é maior, mas não exclusiva. Por isso, quero deixar claro que jamais me compararia, hoje ao menos, à figuras como Otto Maria Carpeaux para a literatura, por exemplo. Isso não me impede, porém, de realizar meus próprios julgamentos sobre as artes, que são, por natureza subjetivas.

Ainda que seja parcialmente subjetiva, a arte não é despida de argumentação quando em face de críticas. Jamais uma crítica decente de alguma manifestação artística deve tanger o campo da subjetividade absoluta (ou ao menos deixar transparecer). Ainda que os argumentos em sua cerne possam ser oriundos das experiências sensoriais (para o desgosto de Platão e seus irmãos metafísicos) eles não estão despidos de valor argumentativo. A questão é como, logicamente, eles vão ser apresentados e o quão menos subjetivos eles são.

Antes de exemplificar a diferença argumentativa que pode-se encontrar nas críticas, gostaria de fazer uma ressalva importantíssima, talvez tão importante quanto o que voltarei a falar. Gosto é completamente diferente de qualidade objetiva e valorada. Você pode gostar do que quiser, quando quiser e como quiser (desde que, dentro de uma certa ética e moralidade que não cabe ser discutida nesse artigo). Isso porém, não te dá a condição de argumentar, veja bem, argumentar a favor da qualidade disso, ou mesmo contra quando algo lhe desgosta. O gosto deve antes de tudo estar livre de pretensões argumentativas, de qualquer justificativa. Claro, o gosto pode calhar com a qualidade, e isso vai ocorrer com muita frequência, só que isso não implica uma mutualidade necessária.Exemplificarei:

“Gosto de Jack Johnson” – até ai, tudo bem. Gosto em sua forma mais pura, sem adesão de nenhuma justificativa.

“Gosto de Jack Johnson porque ele a sua música me anima” – menos certeiro já que cria chances de uma discórdia. A questão central do gosto é ser indiscutível, e assim estaria-se dando lenha à fogueira. Ainda assim é razoavelmente aceitável pois tange somente as suas opiniões, que são, a princípio suas.

“Gosto de Jack Johnson porque sua música é boa” – é ai, meus caros, que se encontra o erro que leva a toda a discussão desse artigo. Partiremos de um ponto que Jack Johnson faz, de fato, música boa. Isso não quer dizer, porém que seu gosto e sua opinião argumentativa devem andar juntos já que ambos tratam de campos completamente diferentes, a pessoalidade e a, teoricamente, impessoalidade. Quando digo, EU gosto de Jack Johnson, estou tratando de uma característica e ponto de vistas exclusivos meus. Quando aumento o alcance para, Jack Johnson É bom, estou não tratando somente mais de meu ponto de vista e sim comparando-o com o de alguém ou com algo, pois para que algo seja bom, outro tem que ser comparativamente pior. E a partir dai, é necessário um embasamento argumentativo, que não deve estar presente na opinião.

Isso não é dizer, porém, que a opinião argumentativa seja perfeita. Pelo contrário, ela é normalmente é imperfeita e provavelmente nunca chegaremos à um consenso objetivo como no caso da ciência. Mas ainda assim, todo o ponto da argumentação é comparar um argumento ao outro, levando à reflexão, à introspecção e ao auto questionamento. Por isso, a necessidade de separar-se o argumento do gosto. O gosto não precisa ser embasado, logo, ao ser expressado não levará à uma reflexão por parte de quem o disse ou de quem o ouviu. O argumento, por outro lado, deve vir com essa capacidade, formentando então a capacidade intelectual dessa pessoa.

Voltemos então ao problema central: as pessoas. Por mais que para a maior parte delas essa divisão de argumento e opinião deva ser natural, elas na sua maioria se veem incapazes de separar-los. Não é muitas vezes sequer imaginável. Para muitas pessoas, por exemplo, é quase um crime dizer que seu artista favorito é ruim, ou que seu autor predileto não é lá muito habilidoso com as palavras. O problema na atitudes deles está não no fato de discordar, mas sim na maneira da discordância. Não discordam ao apresentar argumentos e sim pela clássica frase “Gosto não se discute” mesmo quando, realmente, o que se está tratando não é o gosto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS, OU CONSIDERAÇÕES FINAIS MESMO 

Esse pequeno post teve, como intuito, justificar a necessidade da crítica que ainda imperfeita e incompleta, tem um papel importantíssimo a cumprir no estudo das artes e na formação do caráter intelectual de qualquer pessoa, e preferencialmente por discordar do que foi dito e não concordar. A crítica, serve para não somente criticar mas também ser criticada. É um mecanismo incrível para a reflexão humana e que deve ser exercitado com frequência.

PS: Sei que posso ter parecido um pouco prepotente em certos pontos do texto, mas prefiro ser taxado de prepotente a um agente completamente passivo intelectualmente. Se não o faço fisicamente, no intelectual é o mínimo que devo entrar.

PPS: Neutral Milk Hotel é superestimado.

Greenland is Melting – Our Hearts are Gold, Our Grass is Blue

Uma nova força no tradicional estilo Bluegrass, oriundo do sul dos EUA. Essa é a proposta do trio Greenland is Melting, de Gainesville, Florida. O trio conta com um banjo, um baixo e um violão no seu instrumental, pois é, nada de bateria. Essa combinação de instrumentos e principalmente dos vocais dá um ar totalmente novo para um ritmo mais antigo, que é o bluegrass. Porém reduzir toda a sonoridade da banda à apenas um estilo musical seria um tanto injusto, pois nota-se facilmente influências do folk e do punk nas suas músicas. Resumindo, Greenland is Melting soa como um bluegrass cheio de energia. O trio tem influências da cultura do it yourself, o que reflete principalmente na forma que se dão suas gravações e a distribuição dos álbuns.

Seu álbum de 2009, Our Hearts are Gold, our Grass is Blue é um disco extremamente contagiante. Tratando de temas variados, falando principalmente de viagens, ar livre e perdas amorosas, o álbum tem uma profunda relação com o sul dos EUA. Essa temática de falar sobre o lugar está relacionada principalmente ao fato dos membros da banda terem viajado muito pela região. Essas experiências de viagens começam a ser apresentadas ao ouvinte logo na primeira música From City to Town, que reflete muito essa característica viajante, percebida principalmente nesses versos: We drive from city to town still trying to figure out just what we have found.E em outras músicas como Hotel Floors: Hillsborough, Tanglewood, hotel floors, we don’t need nothing more. We can spare some time for a little drive in North Carolina an old mountain climb. Uma música que puxa muito o bluegrass tradicional é Wayfaring Stranger, que trabalha também com esse tema de viagens: I am a poor wayfaring stranger, traveling through this world of woe.

A paisagem está muito associada a temática do Bluegrass, pois esse gênero é uma afirmação da cultura sulista estadunidense. Ligado a paisagem temos o tema de amizades e da importância dela para as pessoas. Amizade essa que geralmente surge durante as viagens e andanças do trio. Aparecendo portanto nas mesmas músicas que eu citei acima, versos como: We met some friends recently, that have such generosity/They give us food, a place to stay, keep us close when we’re away; And I know that I’ll always be alright, as long as I got them singing boys by my side.

A capa do álbum mostra bem o tema de perda amorosa existente em certas músicas, essa imagem da capa é um retrato da música No One Wants to Die, onde ouvimos: I wish I wish my love were free and sat below the magnolia tree, but me poor girl is dead and gone and the green grass grows o’er the graves below. A capa mostra portanto o narrador com seu banjo, instrumento que dá a sonoridade marcante do bluegrass, lamentando a falta de sua amada.

Ainda que trate de assuntos um tanto tristes, a banda é fundamentalmente alegre. Combina perfeitamente com aquele sentimento de: “a vida muitas vezes é triste, porém o importante é ser feliz”. Outra coisa importante é a vontade da banda de que seu som se mantenha igual, sem alterações, fazendo uma música honesta do jeito que eles visualizam, pois em The Kitchen Song ouvimos eles cantarem com emoção: No, no, no we don’t have the songs for the radio, but we have the songs for the backyard that our friends know.

Essa honestidade e energia que Greenland is Melting transmite é o que me cativou, e desde que eu ouvi pela primeira vez, não consegui mais parar. A banda distribui de graça os seus álbuns no seu site, você pode baixar o Our Hearts are Gold, Our Grass is Blue aqui. Fica então uma das minhas favoritas do álbum para vocês ouvirem: No More Sorry Songs.

 

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The National – Alligator

Grandes bandas têm, na grande parte das vezes, uma estética própria. Essa estética, por sua vez, não precisa ser única, mas sim presente. Até porque, o maior sinal da grandeza de uma banda (e não necessariamente de qualidade) é a capacidade de influenciar toda a visão ou atitude de uma (ou mais) pessoa. E é por essa estética que a maior parte delas o consegue. The National é, sem dúvida, uma grande banda.  Logo, há de se imaginar que a banda possui uma estética forte e marcante. Só que o que acontece é justamente o contrário. Eles possuem sim uma estética, mas todo o charme de sua estética está justamente na sua falta de pretensão.

Veja a capa do Alligator. E do boxer. Ao que elas te remetem? A mim, ao menos, a um baile. Não um baile qualquer, mas o baile com que a maior parte das pessoas tenta esquecer (ao menos na impressão que os estado-unidenses nos passam), o baile de formatura. E The National é justamente isso, uma banda feita para sua formatura e o que se segue dali. É claro que não estou dizendo que todas as pessoas tentam esquecer seu baile, algumas delas o estimam muitíssimo. Mas, para grande parte do público alvo do gênero (que os próprios integrantes da banda também são), a formatura tem sim motivos para ser esquecida. Quer seja por um amor perdido

“Whatever you do
Listen, you better wait for me
No, I wouldn’t go out alone” 

ou por um amor que nem sequer tenha sido achado.

E não só a noite do baile lhes é traumática e sim todo o ideal que ele representa. O colegial frustado, os sonhos que em face da maturidade recém adquirida, já não mais parecem tão possíveis  ou até mesmo por conta da aceitação. Diria inclusive, à pesar do que já havia dito, que TODO aluno do colegial sai machucado. Se ele se enquadra, sacrifica coisas que lhe eram importantes e muitas vezes mal sabe se portar.

“You turn me good and god-fearing
Well, tell me what am I supposed to do with that
I’m missing something “

Se não se enquadra, sente-se sozinho nos seus ideais. O que já havia sido perseguido não mais lhe sacia. Por que lhe saciariam, aliás, se mal o conseguiram fazer ser aceito? Do que adiantam, ora bolas, se não para sustentar sua auto estima?

“Take all your reasons and take them away
To the middle of nowhere, and on your way home
Throw from your window your record collection
They all run together and never make sense
But that’s how we like it, and that’s all we want
 Something to cry for, and something to hunt”

E mesmo o que, a princípio, era bem aceito por quem era, amado pela sua natureza e não por máscaras ou reflexões distorcidas de sua razão, não pode escapar dos traumas do colegiando. Mesmo aquele que era um símbolo do sucesso, ainda que em escala estudantil, ao passar da sua vida suburbana e das asas da sua alma mater, ver-se-à  em fronte da realidade de todos. Não somente mais das mesmas pessoas que o faziam desde que se dera por gente. Agora, seus colegas, seus iguais, não são mais seus admiradores e sim seus depreciadores.

“I wish that I believed in fate
I wish I didn’t sleep so late
 I used to be carried in the arms of cheerleaders”

No fim das contas, o apelo do National está aí. Com seu som contido, propositalmente meticuloso e sucinto, remetendo aquela fatídica noite, ponto culminante de toda sua angustia juvenil. Um som longe da visceralidade mas ainda assim cru, cru não por jovem mas sim por estar despido de suas convenções, sendo o que lhe convém ser e não o que querem que o seja. Por sinal, também é bem longe da juventude o ponto em que a voz barítona de Matt está. É uma voz cansada, torneada por suas experiências, ainda assim incapaz de cicatrizar aquelas feridas; fruto maldito de uma experiência frustrada e inapagável que foi sua escola.

Justamente o National tenta ser esquecido. Não por fugir ao sucesso, mas para tentar ser o exato oposto do que lhe assola, da memória que permeia toda sua frustração, toda sua sensação de fracasso. E ainda assim falha. Mas é nessa falha, nessa incapacidade quase que incidental e poética que reside toda a força do som do National. Na sua condição de derrotado, ainda que consciente. Afinal, eles também sabem que nada é completamente esquecível.

E eles sabem que enquanto estão tentando sarar essas feridas os outros simplesmente não os vão esperar. Eles sabem que, inevitavelmente essas feridas vão continuar abertas e que as próximas fases das nossas vidas não vão ser gentis ou sequer compreensivas com essa ferida tão profunda e latejante. No fim das contas, eles mesmo já às sustêm.

“The English are waiting
And I don’t know what to do
In my best clothes

I’m the new blue blood, I’m the great white hope
I’m the new blue blood”

E é assim, por meio da música, que dois pares de irmãos se juntaram para enfrentar uma mesma ferida. Uma ferida comum não só a eles mas sim a todas as pessoas.

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